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Autor: Teresa Ann Southwick
Ttulo original:  Wedding rings and baby things
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997
Publicao original: 1997
Gnero: Romance contemporneo
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida

Senhoras e Senhores...
Kelly Walker e Michael Cameron gostariam de ter a honra de sua presena  cerimnia de seu casamento s dezoito horas do prximo sbado.
A cerimnia ser realizada na residncia do noivo, Peachland Avenue, Bewhall, Califrnia. A recepo ter incio imediatamente aps a troca dos votos matrimoniais.
Os noivos pedem desculpas por no terem enviado o convite antes,- mas h uma histria atrs dessa pressa, uma que vocs podero comprovar com seus prprios olhos...
Queiram juntar-se a Mike e a Kelly nessa aventura que iniciou como uma amizade perfeita e que talvez termine em paixo...

CAPITULO I

Kelly Walker escolheu um pssimo momento para riscar de sua vida os homens. No que pretendesse mant-los distantes para sempre, claro. No entanto, no estado em que se encontrava, no seria recomendvel envolver-se sentimentalmente com nenhum deles.
Por outro lado, suspeitava que fora esse mesmo estado que levara o diretor da escola onde lecionava a querer v-la em sua sala. Parou diante da porta onde se lia a inscrio "Diretoria". Por mais que tentasse se convencer, sabia que o' sr. Bloomhurst no lhe pedira que fosse at ali para discutir sua interpretao de Hamlet. Na certa queria falar sobre o fato de ela estar grvida de seis meses, ser solteira e no estar de casamento marcado.
A Escola Stevenson ficava em Newhall, a pequena cidade californiana onde Kelly crescera, e ningum melhor do que ela sabia como as pessoas ali gostavam de bater com a lngua nos dentes. Tambm era espantosa a rapidez com que as fofocas espalhavam-se. Ela seria capaz de apostar que em poucas horas a cidade inteira saberia que estava grvida.
At ento, conseguira disfarar a barriguinha que agora comeava a se pronunciar. E apenas duas pessoas tinham conhecimento de que teria um beb. Uma delas era Susan Wishart, que lecionava na classe ao lado, e a outra era Michael Cameron, encarregado do departamento de esportes, treinador-chefe do time de futebol e seu melhor amigo.
Kelly os fizera prometer que guardariam segredo at que ela mesma transmitisse a notcia ao sr. Bloomhurst. E, apesar de ter ensaiado o que dizer, no se sentia preparada para aquela conversa desagradvel com o diretor.
Esperava coloc-lo a par da situao no final do semestre, quando os contratos do ano seguinte seriam assinados. Nas escolas do Arizona, onde lecionara antes de ir para Newhall, uma semana antes das frias de vero os professores j sabiam o que estariam lecionando no outono. H dois anos Kelly lecionava em Stevenson e, uma semana antes de as aulas comearem, ningum sabia o que iria ensinar. Ela, porm, j se acostumara  forma pitoresca como as coisas aconteciam por l.
Julgara que disfararia o corpo rolio com as roupas largas que adotara. No entanto, percebia os olhares demorados e curiosos lanados em sua direo. As sobrancelhas se erguiam, indagadoras, quando algum notava-lhe a cintura larga e, em seguida, examinava-lhe o rosto mais cheio. Por fim, mediam-lhe as pernas, para verificar se engordara por completo. E, aps um ritual que durava aproximadamente dois segundos, a pessoa fingia nada haver notado.
Exceto Elizabeth McCutcheon. Naquela manh, ela perguntara a Kelly sem nenhum rodeio se estava grvida. E, aps ter obtido a confirmao daquilo que suspeitava, afirmou no saber que a professora era casada. Kelly informou que no era e passou a temer as conseqncias da conversa. Mesmo naquela cidadezinha, tinha certeza de que a maioria das pessoas no criaria polmica em torno do assunto. Mas no devia contar com o apoio da sra. McCut-cheon. Afinal de contas, ela era a presidente da associao de pais e mestres.
O resultado daquela conversa era a reunio a que fora convocada pelo sr. Bloomhurst.
Kelly suspirou profundamente antes de bater  porta.
	Entre  uma voz convidou.
Ela entrou e deu com Cliff Bloomhurst sentado atrs da escrivaninha. Ele ergueu os olhos da pilha de papis que examinava e fitou-a.
	Feche a porta, por favor  pediu, sorridente.
Kelly obedeceu e aproximou-se da mesa. O diretor indicou-lhe uma das cadeiras. Enquanto se sentava, foi observada por ele, que a fitava por sobre os culos mantidos na ponta do nariz. Bloomhurst tinha as mangas da camisa enroladas at o cotovelo e a gravata afrouxada. O ralo cabelo comeava a ficar grisalho e havia um calor genuno nos olhos azuis. Era um homem de corao terno e Kelly o admirava.
	Sei do que se trata. Por favor, no vamos perder tempo com rodeios  ela adiantou-se.  Vou ter um filho, sr. Bloomhurst.
	Eu j soube.
	Eu planejava mesmo contar-lhe. O beb  para o final de junho, talvez incio de julho, mas pode contar comigo. Estarei aqui no comeo das aulas, em agosto.
	Gostaria de no precisar perguntar, mas... por acaso pretende casar-se com o pai da criana?
	No, no pretendo.
Mesmo que Doug Hammond a tivesse pedido em casamento, em vez de sugerir que no contasse com ele para nada, Kelly no se ligaria a um homem to desleal e inconseqente. Lamentava no ter percebido a tempo o tipo de canalha que o namorado era, e no esperava tornar a v-lo aps aquela ltima conversa.
Mas na ltima semana ele vinha insistindo em deixar-lhe mensagens na secretria eletrnica. Proositadamente, ela no retornara nenhuma das ligaes, esperando que Doug entendesse que o queria fora de sua vida, e para sempre. No suportaria tornar a v-lo. Muito menos conviver com ele. No entanto, jamais lamentaria o fato de estar grvida.
O sr. Bloomhurst parecia realmente interessado.
	Ento estou de mos atadas. Liz McCutcheon reuniu-se com a diretoria aps a conversa que teve com voc. Como resultado comunicaram-me que seu contrato com a escola no ser renovado.
O corao de Kelly se apertou.
	No entendo... O que tem a ver gravidez com trabalho?
	Voc  uma excelente professora e ningum aprecia seu trabalho mais do que eu. No entanto, a direo da escola jamais permitir uma professora grvida e solteira dando aulas em uma de nossas salas. Esto preocupados com os alunos. Acreditam que no seria um bom exemplo.
	Mas estamos s portas do sculo vinte e um, sr. Bloomhurst! As mulheres atualmente criam seus filhos sozinhas!
	Sei disso  concordou ele.  Mas lembre-se de que vivemos na cidadezinha de Newhall, Califrnia, Estados Unidos.  um timo lugar para morar, mas seus habitantes so, na maioria, intoleravelmente conservadores. O beb j ter nascido quando as aulas recomearem!
	Oh, sim... E pretende ficar com ele?
Kelly chocou-se com a pergunta. Jamais entregaria seu filho para outra pessoa criar.
	Mas claro que sim!
	Lamento dizer, mas estar numa situao difcil... Solteira, desempregada e com um filho. Fiz o possvel para defend-la, mas o pessoal est irredutvel.
Kelly sentia a mente entorpecida. A idia de ficar sem o emprego era assustadora. No entanto, no teria uma crise nervosa na frente do diretor da escola.
	Diante disso, no h o que eu possa fazer...  Kelly levantou-se e segurou as costas da cadeira com tanta fora que as juntas dos seus dedos ficaram esbranquiadas.  Quer que eu fique at o final do perodo?
	Agradeceria se fizesse isso.
	Mesmo grvida? A sra. McCutcheon no se sentir ofendida?
	Eu cuido de Liz.  O diretor manteve os olhos baixos por um momento, depois voltou a encar-la.  Sei que parece hipocrisia, mas gostaria de que a notcia da sua demisso no se espalhasse. No ser bom que os alunos saiba que precisaremos substitu-la.
	Eu seria a ltima a querer prejudic-los  concordou ela.  Muitos precisam melhorar as notas para poder enfrentar um vestibular no incio do ano e estou empenhada em ajud-los.
	Agradeo muito.  Ele cruzou as mos e fitou-a, meio sem graa.  Posso lhe fazer uma pergunta? No precisa responder se no quiser.
	Faa. Nada tenho a esconder.
O diretor da escola pigarreou.
	H boatos sobre voc e Mike Cameron... Bem... Ele  o pai do beb?
	Claro que no! De onde tiraram essa idia?  Kelly ficou chocada, mas pouco depois quase caiu na risada. Mike? Mike Cameron? Conhecia-o desde pequena e j estivera apaixonada por ele, mas com o passar dos anos aquele sentimento lindo transformara-se em amizade. Os dois moravam praticamente na mesma casa e decerto por isso os boatos sobre eles fervilhavam na cidade.  Mike e eu somos bons amigos, e atualmente sou sua inquilina. Como deve saber, ele me aluga a casa de hspedes.
	Sim, eu sei... Foi uma pergunta idiota. Se Mike fosse o pai, no estaramos tendo esse tipo de conversa, concorda comigo?  O sr. Bloomhurst tirou os culos e levantou-se, com a mo estendida.  Se precisar de algo, e s pedir.
	Obrigada...
Kelly sabia que ele estava sendo sincero, mas no pde evitar a frustrao. Embora fosse gentil, o sr. Bloomhurst era um homem, e como tal, nada confivel.
Ela entrou com o carro pela lateral da residncia e parou diante da pequena casa de hspedes. Abriu o porta-malas e de l tirou as caixas de papelo vazias. Precisava procurar um novo trabalho e um novo lugar para morar, concluiu enquanto se dirigia para a varanda.
Colocou as caixas no cho para poder abrir a pesada porta de madeira. Com um leve toque no interruptor, acendeu os abajures de lato. Olhou em torno do living aconchegante, com sofs e poltronas forrados em tecidos floridos. As mesinhas laterais e a de centro eram de madeira escura. Seus ps afundaram no espesso carpete bege-claro.
De repente, as emoes que tentara conter durante o dia afloraram, formando-lhe um n  garganta. Sentiria falta daquele lugar.
Lembrou-se da ocasio em que Mike legara  sua me a tarefa de escolher o carpete e dar uma ajuda na redecorao, pouco antes de elas se mudarem para a casa. Doente como estava, Margareth Walker tornara-se visivelmente mais animada com a oportunidade de ser til.
Kelly seria sempre grata ao amigo pelo modo gentil como tratara sua me. Justamente por isso tinha obrigao de deix-lo fora daquela histria.
Eram sete horas e j havia anoitecido. Kelly passara o dia sem comer mas no sentia um pingo de fome. Desde a conversa que tivera com o sr. Bloom-hurst no fizera outra coisa alm de pensar no que fazer. Concluiu que a primeira providncia a tomar seria mudar-se.
Levou uma das caixas de papelo para a cozinha e, aps tirar os sapatos, comeou a guardar nela os utenslios que raramente usava. O barulho que as panelas faziam quase abafou o som da campainha. No entanto, um segundo toque, bem mais insistente, mostrou-lhe que a gravidez no lhe afetara a audio.
Caminhou descala at a porta da frente.
	Onde diabos voc se meteu?  Mike Cameron
encarou-a ao entrar.
A resposta dela veio na forma de uma provocao velada.
	Ol, Mike. Estou bem, obrigada. E voc, como est?  ironizou ao fechar a porta. Deu-lhe as costas e retornou ao trabalho na cozinha. Mike a seguiu.
	Fiquei preocupado. Quase fui  polcia quando
voc no apareceu para a aula com Jake.
Kelly gemeu, frustrada, e levantou-se.
	Oh, eu sinto muito! Esqueci completamente a aula com Jake.
	Mas o que est havendo? Algum problema?  Ele a fitou e os olhos escuros, quase negros, penetraram-na como se desejassem desvendar-lhe os mais ntimos segredos.
	O que o faz pensar que esteja acontecendo algo?
 E o que mais eu poderia pensar? Voc  a pessoa mais responsvel, mais organizada e pontual que conheo... Sei que jamais esqueceria um de seus alunos.
	Com todos esses elogios, voc me deixa convencida.
	No mude de assunto. O que est havendo?
	Sinto muito. Tive um dia pssimo, mas vou ligar para Jake e pedir desculpas. Talvez ele possa vir agora.
Dirigiu-se  mesinha do telefone, junto a qual Mike se encontrava, mas ao ver-lhe a expresso parou no meio do caminho. Seu porte atltico sempre a surpreendia. Usava o cabelo cortado curto e, como sempre, escondido sob do bon do time de futebol da escola. Estava com trinta e cinco anos, mas, quando sorria, apesar da barba cerrada, lembrava um menino crescido. E, naquele momento, seus olhos escuros demonstravam total frustrao.
Kelly achava lamentvel o fato de ter se esquecido do compromisso com Jake Saterfield, mas suspeitava que, para o rapaz, fora uma bno no ter aquela aula extra.
	No se preocupe com isso. Jake foi estudar na casa da namorada  informou Mike.
	timo. Jssica  uma excelente aluna. Se de fato estudarem, ele se sair bem na prova de amanh.
	Para o inferno com a prova dele!
	Ah, ? Julguei que se preocupasse com as notas de Jake e com a possibilidade de ele ser escolhido para jogar no time de futebol, em setembro.
	E estou. Mas, neste momento, quem mais me preocupa  voc. Perguntei onde esteve e no me respondeu. Foi s nesse momento que ele notou as caixas de papelo.  Ei! O que pretende fazer com isto aqui?
	Estou guardando algumas coisas.
	Isso eu estou vendo! Mas por qu? No devia estar fazendo esforo. Esqueceu que est grvida?
Ele cruzou os braos e Kelly no conseguiu deixar de notar como a camiseta vermelha realava-lhe os msculos do trax. Estava em perfeita forma fsica. O short preto e justo destacava os quadris estreitos e as coxas musculosas. Mike conseguia fazer o corao de qualquer mulher bater mais depressa. Pena Kelly ter jurado riscar todos os homens, sem exceo, de sua vida.
Ela o achara deslumbrante logo que o vira. Seu irmo, Jim, o levara at em casa aps um treino. Mike usava o uniforme de futebol da escola, e ela se apaixonou  primeira vista.
Mas nunca houve nada de romntico no relacionamento dos dois. Mike sempre a tratava como uma irm mais nova. A decepo que Kelly sentia por no ser notada como mulher, e o implacvel passar do tempo, foram aos poucos corroendo aquela paixo. Mas amadurecer no significa ficar surda, muda e cega; Mike era atraente demais, sensual demais para a paz de esprito de Kelly.
	Desde quando gravidez  doena?  indagou ela, com ar travesso.
Mike ergueu as sobrancelhas de modo indagador. Aproximou-se e gentilmente a segurou pelos braos, fitando-a nos olhos.
	Sei que est havendo algo. No vai me dizer o que ?
Kelly sentiu-se fraquejar e as lgrimas ameaaram-na. A notcia da demisso a deprimira, mas at agora, valentemente, conseguira sufocar as lgrimas. Por que tinha de chorar justamente na frente de Mike?
	Fui demitida  informou com certa impacincia.
	Demitida? No ppde ser!
	Pode, sim. A partir de agosto, estarei fora da Stevenson.
	No estou entendendo. Voc  uma das melhores professoras da escola!
	No culpe o sr. Bloomhurst. Ele  contra a deciso, mas est de mos atadas. A diretoria decidiu demitir-me por causa do beb  informou ela, pousando a mo sobre o ventre.  Na verdade, no  por causa do beb e sim porque no me casei com o pai dele.
	A mulher que decidir se casar com aquele canalha s pode ser louca!
	No comece ou serei forada a lembr-lo de Bambi, sua ltima conquista.
	O nome no  Bambi.  Jennifer.
	D na mesma.  Kelly sentia-se exausta.  Vou me sentar. Se est disposto a me apoiar em vez de me criticar, est convidado a ficar. Seno, me deixe em paz.
	Vamos... Voc sabe que sempre poder contar comigo  disse ele, pegando-lhe a mo para conduzi-la ao sof em frente da lareira.
Sentou-se ao lado dela. Respirara aliviado quando finalmente ouvira-lhe o carro aproximar-se da casa. Logo depois, viu as luzes acesas. Pelo que sabia, a amiga no faltava a um compromisso desde quando completara dezoito anos. Naquela poca ele e Jim a haviam "seqestrado" a fim de demov-la da idia de cortar o longo e maravilhoso cabelo castanho-avermelhado.
Mike virou a cabea para poder ver-lhe o rosto no momento em que ela prendia uma mecha de cabelo atrs da orelha delicada. Ao longo de todos aqueles anos j a vira com cabelo curto, longo e semilongo. No entanto, gostava mais do corte sofisticado que ela atualmente adotava, na altura do queixo, chamando mais ateno para o formato perfeito do rosto. Tinha a aparncia frgil e delicada, mas era forte e cheia de determinao.
Mike detestava pensar que Kelly perderia o emprego. Era uma excelente profissional, com muito a oferecer aos alunos. Detestava mais ainda saber quanto a situao a deprimia. Mas a conhecia o bastante para saber que no era somente a demisso que a perturbava. Devia haver algo mais. E ela ainda no explicara o que pretendia fazer com as caixas de papelo.
	Por que est empacotando as coisas da cozinha?  quis saber.
	 o que se faz antes de mudar, no?
Mike levou um choque. Mudar? Justamente agora? E por qu?
	Espere a! Bloomhurst pode demiti-la, mas no pode exigir que saia da cidade!
	Quem falou em sair da cidade? Vou sair de sua casa. Estou alugando um apartamento na rua Walnut  comunicou ela, desviando o olhar.
	No estou entendendo. Por que precisaria sair daqui justamente quando precisa de algum por perto?
	Bem, voc no vai gostar de saber  disse ela, encarando-o.
	Diga de uma vez! Est me deixando ansioso!
	Ento prepare-se: h um boato sobre ns dois. Dizem que voc  o pai do meu filho.
	Ridculo!  Mike exaltou-se.   o maior absurdo que j ouvi. Todo mundo sabe que somos amigos.
	Avisei que no iria gostar, no foi? Tenho certeza de que foi Liz McCutcheon que comeou a espalhar a fofoca. Mas qualquer pessoa mais maliciosa chegaria  mesma concluso. Afinal de contas, moramos praticamente juntos.
	Detesto esse tipo de comentrio. As pessoas no tm mais o que fazer? No sabem que sempre fomos amigos?
Kelly suspirou.
	Ns dois sabemos, mas no espere que os outros acreditem.  por isso que vou me mudar. Para no prejudic-lo.
	De jeito nenhum! Jamais permitirei que saia daqui.
Mike surpreendeu-se com a prpria reao. No queria que Kelly se mudasse, mas isso no se devia apenas ao fato de ela estar grvida, ou porque morar sozinha iria lhe dificultar as coisas. Na verdade, gostava de t-la por perto.
Kelly e a me haviam se mudado para a casa de hspedes seis semanas antes de a sra. Walker morrer, de cncer. Alguns anos antes, ela, que Mike considerava sua segunda me, recusara-se a aceitar o emprstimo que ele oferecera para ajudar Jim a abrir uma empresa de contabilidade em Phoenix. Em vez disso, a sra. Walker preferira hipotecar a casa.
Quando adoeceu, e no querendo que os filhos se endividassem para pagar a hipoteca, decidiu vender a casa.
Foi quando Kelly, que na ocasio morava no Arizona, voltou para a cidade, a fim de cuidar da me. Mike, muito penalizado com a situao das duas, insistiu para que se instalassem na pequena casa de hspedes. Elas concordaram, mas apenas com a condio de pagar aluguel. Aps a morte da me, Kelly continuou morando ali.
	No entende, Mike? No vou permitir que esses boatos prejudiquem a sua imagem. Quando eu me mudar daqui, o falatrio com certeza cessar.
	De forma nenhuma! Se as pessoas acreditam que sou o pai, o fato de voc se mudar daqui no adiantar nada.  Ele se levantou e comeou a andar de um lado para outro.  Irei conversar com Cliff amanh bem cedo e garanto que ter seu emprego de volta. Do contrrio, ele vai se ver comigo!
	No faa isso. O sr. Bloomhurst foi obrigado a me demitir. E no foi ele quem espalhou esse boato. Est com as mos atadas, e no merece que voc o agrida. No gosto disso.
Mike percebeu um leve tremor nos lbios da amiga.
	Talvez no d em nada, mas quero que ele saiba como me sinto.
	Mas a troco de qu? Voc estar se arriscando a tambm ser demitido.
	Juntei um bom dinheiro jogando futebol profissional e no preciso daquele emprego. Muito menos de uma lcera. Aquela fofoqueira da sra. McCut-cheon merece uma lio. No pode brincar com a vida das pessoas.
	Pense no time de futebol. O que acontecer se voc for demitido? Tem treinado a garotada desde o incio. No pode abandon-los justamente agora, quando tm chances de conquistar o campeonato estudantil.
	Voc no est abandonando seus alunos?
	No tenho outra escolha. Voc sim.
	Voc  uma excelente professora. No permita que esse bando de ignorantes a afaste. Lute. Os garotos sero os grandes prejudicados.
	Lamento, mas no tenho como lutar. Alm disso, preciso pensar em meu filho. E voc precisa pensar no time e nos rapazes. Imagine s a alegria deles se vencerem o campeonato deste ano...
Por mais que Mike detestasse admitir, Kelly tinha razo. Investira bastante nos jogadores. Se sasse agora, teria que ser substitudo, o que prejudicaria o time.
	Tudo bem, ponto para voc. Prometo me conter e no dizer  sra. McCutcheon o que penso dela.  Mike parou de andar, furioso.  Mas no conseguir me impedir de dizer-lhe umas verdades.
Pela primeira vez desde que chegara, Mike viu Kelly sorrir. A preocupao por um instante desapareceu de seu rosto. Para ele, foi como se o sol tivesse surgido aps uma tempestade.
Resolveu no interferir pela amiga junto  diretoria da escola, mas encontraria uma forma de ajud-la. Detestava v-la perder o emprego, e sabia quanto ela desejava aquele filho.
Suspirou. Devia haver um forma de Kelly ter ambos, filho e trabalho. Precisava convenc-la de que no era necessrio sair da casa para livr-lo dos boatos. Jamais dera a menor importncia a mexericos.
	Se ao menos eu tivesse alguma fora, eles no se veriam livres de mim to facilmente  resmungou Kelly, com um suspiro desalentado.
	O que foi que Cliff lhe disse?
	Que a diretoria da Stevenson no admite que uma professora grvida e solteira d aulas aos alunos.
Mike continuava a andar de um lado para outro diante da lareira.
	Ento o problema  voc ser solteira? Como descobriu que as pessoas me julgam o pai do beb?
	O sr. Bloomhurst contou "que ouviu o boato e depois me perguntou se era verdade. Por fim, pediu desculpas, dizendo que fizera uma pergunta tola.
	Por qu?
Kelly encolheu os ombros.
	Disse que, se voc fosse o pai da criana, no estaramos tendo aquela conversa. O que acha que o sr. Bloomhurst quis dizer com isso?
Mike sabia exatamente o que Cliff quisera dizer. Estava surpreso por no ter pensado naquela soluo brilhante. Virou-se e fitou Kelly. Por que no? Gostava dela, que gostava dele, e os dois gostavam de crianas.
	Que cara  essa Mike? No que est pensando?
	Acho que encontrei a soluo perfeita para nos so problema.
	"Nosso" no. "Meu" problema, e gostaria que voc...
	Fique quieta e oua. Tenho uma soluo genial.
	Est bem. Diga logo.
	E muito simples. Case-se comigo!
CAPTULO II

Kelly o fitou, espantada. Seu corao agitou-se diante da proposta inesperada.
	Casar com voc?  repetiu, num tom acalorado.  Deixe de brincadeira, Mike.
	No  brincadeira. Estou falando srio. Pense bem: voc precisa de um marido e, nas atuais circunstncias, com quem, alm de mim, poderia casar-se?  Ele sorriu de modo travesso.
Ao ver aquele sorriso, Kelly sentiu um arrepio de prazer. Baixou os olhos por um instante e sacudiu a cabea antes de voltar a fit-lo.
	Jurei riscar os homens da minha vida, e voc sabe disso.
	Os amigos tambm?  Ele a fitou, os braos cruzados diante do peito.  Quero ajud-la.
	Sei que est cheio de boas intenes e sinceramente agradeo. Mas... casamento?  Ela o fitou, desolada. Mike a deixara comovida, mas sua proposta de casamento estava fora de cogitao.  Amigos trocam os pneus furados do nosso carro, emprestam dinheiro, avisam quando estamos com batom nos dentes e coisas assim, mas jamais se casam s porque esperamos um beb.
	E por que no?
Pela forma como ele a fitava, Kelly percebeu que no estava brincando.
	Voc  um homem divorciado e jurou que nenhuma outra mulher o fisgaria. Por que iria querer casar-se outra vez?
	Por qu? Deixe-me ver...  Mike fingiu pensar e fitou-a de esguelha, fazendo uso de todo o seu charme.
	No acho a menor graa.
	No estou tentando ser engraado. Quero lhe fazer uma proposta.
	Outra? Espero que essa no seja parecida com a anterior...
	Se eu lhe desse dez boas razes para nos casarmos, voc mudaria de idia e aceitaria ser minha mulher?
Kelly riu baixinho. Tinha certeza de que ele no encontraria uma nica boa razo, muito menos dez.
	Est bem. Pode comear. Deseja estipular algum limite de tempo?
	Isso no  um jogo.  srio!
	Depende do ponto de vista.  Kelly ajeitou-se confortavelmente no sof e aguardou.  Pode comear, se estiver pronto.
Mike apoiou o ombro  soleira da porta, com ar pensativo.
	Voc gosta de futebol, o que j  um bom comeo. Minha ex-mulher no suportava. Tolerava apenas porque por intermdio dele tinha oportunidade de conhecer celebridades ligadas ao esporte.
	Voc me prometeu "boas" razes, lembra-se?
	E que outro motivo seria melhor do que o futebol? Mas, se no  bom o suficiente, tenho outros nove.  Comeou a caminhar diante dela. At parar e dizer:  Estando casado, as devoradoras de homens finalmente me deixaro em paz. Alm disso, poderemos dividir o mesmo prato nos restaurantes.
	Ora, no diga bobagens. Ningum se casa para economizar em jantares. E no esquea que somos vizinhos. O nmero de mulheres batendo  sua porta no justificaria uma ao to drstica.  Kelly cruzou os braos e olhou para ele ternamente.  Precisarei de razes mais srias.
	Est bem. Que tal assumir voc e seu filho em retribuio  acolhida que sua famlia me deu quando eu era um rebelde sem causa, necessitando de disciplina e orientao? Ou que tal saber que, uma noite antes da morte de sua me, prometi a ela que cuidaria de voc e falhei no que prometi, caso contrrio voc no se encontraria nessa situao?
Mike era maravilhoso e sua preocupao com a palavra dada  sra. Walker em seu leito de morte a comovia. Era reconfortante poder contar com algum como ele. No entanto, precisava convenc-lo de que o amigo no era responsvel por tudo que lhe acontecia.
	Meus pais o acolheram porque gostavam de voc, e porque sabiam que precisava apenas de um pouco de disciplina. Estavam certos.  Kelly pousou a mo sobre o ventre.  Tenho certeza de que mame no pretendia elg-lo meu guardio.
	Ento por que ser que me sinto responsvel? Jamais me perdoarei. No estava em casa na noite em que voc foi me procurar logo que seu irmo retornou  Phoenix, aps o funeral.
	Foi quando liguei para Doug, precisando desesperadamente de algum com quem conversar.  Kelly surpreendeu-se com a expresso sombria de Mike. O que ele faria se soubesse que Doug andava lhe deixando recados?  Complexo de culpa no  um bom motivo para algum se casar. Vamos analisar a coisa por outro ngulo. O que eu ganharia com esse casamento?
	Que tal um sobrenome para seu filho?
Kelly fitou-o diretamente nos olhos e adivinhou o que o perturbava. A me de Mike no era casada com o pai dele. Na escola, o amigo costumava envolver-se em brigas porque os outros garotos o chamavam de "bastardo", um nome sujo e ofensivo. Mike tentava lhe dizer que, se ela insistisse em ser me solteira, seu filho passaria pelos mesmos problemas. Kelly sentiu uma profunda dor no corao.
	Isso  golpe baixo, Mike.
	Pode ser, mas  verdade.
	Voc est sendo antiquado. Estamos prestes a entrar no sculo vinte e um e as mulheres j tm filhos sozinhas.
	Posso parecer antiquado, mas sei o que significa ser diferente dos outros garotos. E isso jamais mudar.
	Vamos parar com isso. Cansei desse jogo.
Kelly levantou-se e fez meno de afastar-se. Mike a impediu segurando-lhe o brao.
	Voc precisa avaliar seriamente a situao. Eu lhe dei uma srie de bons motivos para que aceite minha proposta. Esperava que entendesse que o casamento seria uma soluo bastante prtica para o problema.
	Mas no vi um s motivo que fosse bom para voc. E no me venha com desculpas bobas, como desejar livrar-se do assdio das garotas, do complexo de culpa e outras mais.
Mike suspirou e soltou-lhe o brao.
Como voc mesma disse, estou ficando velho e antiquado. E os velhos no gostam de viver sozinhos.
O solteiro Mike Cameron cansado de viver s? Jamais lhe ocorrera que o amigo se sentisse sozinho, e o fato de ele ter partilhado aquela preocupao aquecia-lhe o peito.
	No chamei voc de velho, apenas de antiquado.
	D na mesma.
	Est bem. Est ficando velho e quer algum que partilhe a cadeira de balano com voc. Mas por que eu? Lembre que em breve haver tambm um beb. Viver numa casa cheia de fraldas e de mamadeiras no o faz tremer de pavor?
	Somos amigos sinceros. E isso  mais do que a maioria dos casais costuma ter. Sabe o que mais? Ser a vida que sempre desejei. Nosso casamento ser perfeito.
	Mas no  essa exatamente a vida que eu sempre desejei. No fundo do corao, ainda espero viver um grande amor, amor verdadeiro, e romance, muito romance.
	Mas voc no afirmou que riscou os homens da sua vida?
	No para sempre.  Kelly foi para a cozinha e continuou a empacotar seus pertences. Subiu numa cadeira para tirar os quadros da parede.
	Ficou louca? Saia j dessa cadeira.  Mike pegou-a pelo cotovelo e ajudou-a a descer.  Deixe que eu fao isso. Pegou os quadros que estavam
no alto e no esqueceu o relgio de parede, presente da me.  Est se agarrando a uma iluso. No
existe amor verdadeiro.
Doa muito rejeit-lo, e Kelly abaixou a cabea. As lgrimas toldaram-lhe a viso e ela tentou reprimi-las.
Acredito no verdadeiro amor. Meus pais se amavam de verdade e no me contentarei com menos. Obrigada, Mike. Provavelmente algum dia lamentarei por ter sido to tola, mas tenho de recusar sua proposta.
Ele endireitou os ombros e suspirou.
	Bem, a oferta continua em p. Se mudar de idia,  s dizer.
	Lamento, mas no mudarei de idia. No entanto, agradeo.
Agora, se no se importa, tenho muito o que fazer. A corretora prometeu verificar meus documentos e em poucos dias saberei quando poderei me mudar.
Mike empilhou as coisas que tirara dos armrios.
	Bem, a deciso  sua.
	Acredite, ser melhor para ns dois.
Ele sacudiu a cabea e Kelly anteviu uma discusso, mas enganou-se.
	Vejo-a mais .tarde.  Foi tudo o que ele disse antes de ir embora.
Kelly observou-o afastar-se, assaltada por uma repentina solido. Sentou-se numa cadeira e l ficou, o olhar perdido no vazio. Mike Cameron acabara de pedi-la em casamento, e falava srio. E no apenas isso; sara dali magoado por ter sido rejeitado. Sua bondade a comovia e deixava um emaranhado de emoes apertando-lhe o peito e a garganta.
Estava grvida, desempregada e... louca. Que mulher, em seu lugar, recusaria a proposta de um homem maravilhoso como Mike?
Mas, se aquela era a coisa certa a fazer, por que se sentia to mal, to infeliz?
No dia seguinte, Mike mal disfarava o mau humor. No treino, nada dava certo, e ele chegou a perder a pacincia com os rapazes, que, tensos, no acertavam um s chute.
Mais tarde, sentou-se em sua sala, tentando descobrir a causa de tanta frustrao. No demorou muito para se dar conta de que o problema era com ele, no com os garotos.
No fundo, Kelly o deixara transtornado. No conseguira pregar o olho a noite inteira. Jamais se conformaria com o fato de ela querer se mudar. E de ter recusado a proposta de casamento. Afinal, seria a melhor soluo.
No entendeu por que desejara tanto que ela dissesse sim at olhar ao redor. Em todo canto havia lembranas da ajuda que os Walker lhe haviam dado. Se no fosse por eles, nunca desfrutaria da posio que tinha atualmente.
No armrio com portas de vidro encontravam-se os trofus que ganhara como jogador profissional. Uma antiga fotografia do time, tirada num banquete comemorativo, mostrava Frank Walker entregando-lhe o prmio de melhor atleta do ano. Embora pouco depois ele tivesse sofrido um ataque cardaco e em seguida falecido, Mike nunca o decepcionara. Era mais um motivo para proteger Kelly.
Talvez seu ego estivesse ferido pela rejeio. Mas, aps pensar bastante, ele concluiu que no era o caso. Olhando novamente para a parede, avistou a fotografia da formatura. Kelly insistira muito para convenc-lo a participar da cerimnia, que para Mike no passava de perda de tempo. Ela lhe perguntara por que no gostava de mostrar quanto era inteligente. Ele a respeitava por isso. Infelizmente, acabara se casando com uma mulher que no tinha os mesmos valores.
O ferimento no joelho, que encerrara sua carreira profissional como futebolista, tambm acabara com seu casamento. Nesse caso, o ditado que diz que coisas ruins nunca vm sozinhas no podia ser mais verdadeiro. Foi uma poca de muitas surpresas. A primeira: no sentiu falta de Carol quando se separaram. A segunda: era mais feliz sem ela. Terceira: no a amara.
Mas sentiria a falta de Kelly quando a amiga mudasse. Gostava de t-la por perto; gostava dela, simplesmente. Cada vez mais se convencia de que, casados, teriam uma vida maravilhosa, e sentia-se frustrado por no conseguir faz-la pensar da mesma forma.
Uma batida  porta interrompeu-lhe os pensamentos.
	Entre. Est aberto.
Jake Saterfield, loiro e de olhos azuis, dezessete anos, entrou na sala e entregou a Mike um pedao de papel.
	Havia apenas isso para voc na secretaria  avisou o rapaz, e sua expresso dizia que temia ser massacrado por causa disso. Mike sentiu-se mal por ter descontado suas frustraes nos garotos.
	Obrigado, Jake.  O garoto assentiu e voltou-se para deix-lo.  Foi uma excelente corrida. Continue assim e na certa quebrar o recorde escolar.
Assim espero!  disse ele, com um sorriso inseguro.
	Como se saiu na prova de ingls?
	Bem... a sra. Wishart garantiu que vou ter
minha nota amanh. Espero que seja boa. Tchau.
Depois que o garoto saiu, Mike leu o recado. Era de umas das corretoras imobilirias locais. Discou o nmero e uma voz feminina atendeu.
	Srta. Anderson.
Ele recostou-se  cadeira.
	Aqui  Mike Cameron. Recebi seu recado. Suponho que seja sobre minha inquilina, Kelly Walker.
	Isso mesmo, sr. Cameron. Ela pretende alugar um dos nossos apartamentos e indicou seu nome como referncia.
	Certo.
Naquele momento, uma idia lhe ocorreu. Mike
no estava muito seguro dela; sentia apenas que poderia ser uma sada. De qualquer maneira, se Kelly no tivesse para onde ir, ficaria na casa de hspedes.
	H quanto tempo a srta. Walker  sua inquilina?
	No muito...  disse isso com um toque de reprovao na voz.
	 mesmo?
Ele pde perceber uma centena de dvidas na pergunta.
	Deseja que eu seja mais especfico? Ela est comigo h uns oito meses.
	E j lhe causou algum problema?  O tom era suspeito.
Mike devia aquilo aos Walker. Prometera  sra. Walker que cuidaria de Kelly e seria mais fcil fazer isso se ela seguisse morando na casa de hspedes. Detestava ser desleal com a amiga, mas no tinha escolha. Ela era teimosa demais.
	Eu no diria problemas...  falou, com alguma hesitao.  Sabia que ela est grvida?
	Sim, ela nos informou. Isso no seria obstculo porque o condomnio aceita crianas. H mais alguma coisa que devamos saber a respeito da srta. Walker? Mike estremeceu, mas era preciso.
	Sabe que ela est desempregada?
	No. No formulrio que preencheu, ela nos informa ser professora na Escola Distrital de Newhall.
	E , mas somente at o final do semestre.
	Sabe se h algum outro emprego  vista, sr. Cameron?
	No que eu saiba.
	Mais alguma coisa?
	No. Acho que j disse tudo.
	Obrigada. O senhor nos ajudou muito, sr. Cameron.
	 minha obrigao, srta. Anderson.
Mike desligou o telefone sentindo-se um verdadeiro crpula, mas fizera aquilo pelo bem de Kelly. Ela ficaria melhor na casa de hspedes.
No entanto, por mais que tentasse convencer-se disso, estava surpreso com a prpria atitude. Ainda assim, a culpa que sentia era um preo pequeno a pagar. No fundo do corao, no lamentava t-la sabotado.
Kelly carregou outra caixa para o quarto, e depois voltou para a cozinha. Notou a luz vermelha da secretria eletrnica piscando. Apertou o boto e ouviu uma voz masculina dizer:
	Kelly? E Doug. Se estiver a, por favor, atenda. E urgente. No a culpo por no quer falar comigo, mas precisamos conversar seriamente. Uma vez que no retorna minhas ligaes, irei at a. At mais.
	Que maravilha! O que mais pode me acontecer hoje?  resmungou ela.
Depois ouviu a segunda mensagem.
Srta. Walker?  Leigh Anderson. Liguei para inform-la de que o apartamento que visitou j foi alugado, e que infelizmente no temos outro vago.  Telefone se tiver alguma dvida.
Kelly bateu com o punho fechado sobre o balco de cermica. Precisava mudar-se logo, ajeitar a nova casa e encontrar um berrio para o beb antes que ficasse muito pesada para fazer tudo isso.
Quanto a Doug, no desejava v-lo agora. Nem nunca mais.
Olhou para a cozinha, para as caixas empilhadas e para as paredes vazias.
	O que farei agora?
A resposta veio imediatamente. Faria o que sempre fazia: iria procurar seu amigo, e, no importando o que decidisse, Mike a apoiaria.
Era do apoio dele que mais sentiria falta quando se mudasse. Gostava de falar com Mike, estar em sua companhia... Tambm, quem no gostaria de estar ao lado daquele homem charmoso? Era mais do que isso, porm. Do contrrio, no seriam to chegados. Ela calou os sapatos e saiu de casa, determinada a conversar com Mike.
Eram seis horas e o dia ainda estava claro, apesar do tempo frio. Mais um ms e o calor chegaria. E o beb estaria bem maior. Sempre ouvira dizer que o vero era a pior poca para algum dar  luz. Mas estaria em frias, e recomearia a trabalhar somente em agosto. Lamentava no poder continuar na Stevenson, mas esperava ser contratada por alguma escola particular e para isso planejava enviar currculos nos prximos dias.
Chegou  porta de Mike e tocou a campainha. 
Enquanto esperava, ajeitou o camiso florido que usava sobre a legging.
Ento ele surgiu, provocando um impacto to forte que foi impossvel ignor-lo. Essa sensao antiga e deliciosa acontecia cada vez com mais freqncia, mas Kelly creditava-a aos hormnios. A gravidez fazia misrias no corpo da mulher. Ainda bem que em trs meses, quando seus nveis hormonais se estabilizassem, essa sensao desapareceria.
	O que est havendo?  indagou Mike, meio assustado.
	O que o faz pensar que esteja havendo algo?
Ele arqueou as sobrancelhas, numa expresso de incredulidade.
	Presumi que estivesse. Voc est to estranha... Fazia sentido. Ela tambm se sentia estranha.
	Vim conversar com voc. Posso entrar?
	Claro!
Kelly olhou em torno. Adorava aquela casa. Mike contratara um profissional para decor-la, mas seu toque pessoal era notrio no cho de tbuas do hall, nas portas de carvalho entalhadas, nos tapetes as-tecas da sala de estar. Havia um ar masculino no lugar, especialmente pela falta de enfeites e de vasos com flores.
	J jantou?  perguntou ele.
	No. Voc teria uma prato extra para mim?
	Sim, e para mais um batalho de homens famintos.  Abriu um sorriso irresistvel.
	Ainda bem, porque atualmente estou comendo por dois.
Kelly seguiu-o at a cozinha e sentou-se numa das banquetas do balco que fazia a separao entre a copa e a sala de jantar. Mike abriu o freezer e tirou duas embalagens.
	Peito de frango empanado e pur de batatas. Gosta?  Sorriu ao v-la acenar que sim e se ps a ler as instrues. Em seguida, colocou as embalagens no microondas.  O que quer conversar comigo?
	Alugaram o apartamento para outra pessoa.
	Que pena...  disse ele, sem voltar-se.
	No era o nico da cidade, mas prdios com apartamentos de dois quartos que aceitam crianas, que tm playground e segurana no so fceis de encontrar.
Mike finalmente voltou-se para fit-la.
	O que pretende fazer agora?
	Ainda no sei... Quando fui ver o apartamento, a srta. Anderson agiu como se j fosse meu. Disse at que a documentao seria mera formalidade. Mas hoje pareceu fria e distante. Ela falou com voc?
	Sim, ela me ligou.
	E o que disse?
	Perguntou h quanto tempo era minha inquilina e falou que sabia sobre o beb.
	Sim, eu a coloquei a par da situao. A criana no pareceu ser um problema.
	No leve para o lado pessoal. Os apartamentos costumam ter mais de um interessado. Aposto que um casal foi o escolhido.
	Por que est dizendo isso?
	 bvio. Duas rendas e sem filhos.
Kelly pensou um pouco e concluiu que alugar o apartamento a um casal sem filhos seria menos arriscado do que a uma mulher solteira e grvida.
	. Talvez tenha sido isso.
	Pode apostar que sim. Quer tomar algo?
	Um copo de vinho branco.
	Voc deve estar brincando! Nada de lcool para senhoras grvidas.
	Sei disso. Apenas disse que queria. H algo a que eu possa tomar?
Mike se virou e olhou dentro da geladeira.
	Leite, suco de ma, soda limonada e gua mineral.
	Suco, por favor.
A preocupao de Mike com sua sade era tocante. Sem se dar conta, Kelly comeou a imaginar como seria ser casada com ele. Jantariam juntos todas as noites, conversariam sobre os acontecimentos do dia e jamais se sentiriam sozinhos.
Seria maravilhoso ter algum com quem partilhar as tristezas e as alegrias... Os movimentos do beb, as visitas mensais ao mdico, as palpitaes, o medo do parto... Mas iludia-se ao pensar assim.
Algum dia encontraria um homem que a faria delirar e, ento, teria todo o amor com que sempre sonhara. Era apenas uma questo de tempo.
Mike serviu-lhe um copo de suco de ma e fitou-a.
	Sabe que no precisa sair daqui, no sabe?
	Sim eu sei, mas no  justo envolv-lo em meus problemas.
	Justo ou no, j estou envolvido.
Kelly pousou a mo no brao do amigo. Ficou surpresa com o prprio gesto e com a sensao que o toque despertou em seu ntimo.
O brilho intenso nos olhos escuros a fez pensar que ele sentira o mesmo. Olhou para o brao mus-culoso. Engraado... nunca notara como Mike era bronzeado, e como seus pulsos eram fortes. Seriam os hormnios novamente, fazendo com que ficasse mais observadora? Ou era ele que a intrigava? Afastou-se e baixou os olhos por um instante antes de tornar a fit-lo.
	J decidi que vou mudar. No podemos falar em outra coisa?
Ele assentiu.
	Desde que prometa no se precipitar. Sabe bem que ter uma casa para morar durante o tempo que desejar. S no saia por a fazendo bobagens.
	Fazer bobagens? Eu? Como pode dizer uma coisa dessas? S porque estou grvida...
	Aquele canalha aproveitou sua dor para tirar vantagens.  Mike levantou-se, e os olhos escuros irradiavam fria.
	Doug no foi o nico culpado.
	Se ao menos tivesse tido a decncia de respeit-la... Santo Deus, voc tinha acabado de enterrar sua me!
	No esquea que eu o procurei.
	Por que est defendendo aquele canalha?
	No estou. Tento apenas ser justa.  Kelly manteve os olhos fixos no copo de suco.
	Alguma coisa me diz que voc est escondendo algo... No  quer me dizer o que ?
	Como pode me conhecer to bem?  perguntou ela, fitando-o bem dentro dos olhos.  Doug tem me ligado e isso est me preocupando.
	E o que ele quer agora?
	No sei... No retornei nenhuma das ligaes. Mas hoje encontrei outro recado na secretria eletrnica...
	O que dizia?
	Que ele precisava conversar comigo e que viria aqui esta noite.

CAPITULO III

Por que no me contou isso antes? A campainha do microondas soou e Mike tirou o jantar. Distrado, quase se queimou com o vapor quente ao abrir as embalagens. No conseguia acreditar que aquele sem-vergonha perseguia Kelly outra vez.
No simpatizara com Doug Hammond desde a primeira vez que o vira. E, depois do que o rapaz fizera com Kelly, jurara que, se o visse outra vez, faria com que lamentasse ter nascido.
	Para ser sincera, eu no devia ter contado.
Esquea. Cuidarei de Doug.
	Se precisar de ajuda para liquid-lo, conte comigo.
Os olhos de Kelly se arregalaram.
	Quando foi que comeou a ter essas tendncias assassinas? Esse seu lado eu ainda no conhecia!
Nem Mike entendia a prpria fria. No brigava por causa de uma garota desde o tempo de estudante, mas agora sentia vontade de arrancar a pele de Doug Hammond.
	Sabe a que horas ele vir?
	No. Doug no disse.  Kelly sorveu um gole de suco.
	No importa a que horas venha, porque estarei por perto. Se ele sair da linha, irei expuls-lo daqui a pontaps.
Ela pousou o copo sobre o balco, surpresa com a inesperada demonstrao de raiva.
	Aprecio seu zelo, mas vou lhe pedir para que fique fora disso. Ouvirei o que Doug tem a dizer e em seguida, se achar que devo, mando-o embora.
Aquela era Kelly que ele conhecia, sempre querendo resolver tudo sozinha... A verdade, porm, era que Mike no podia evitar a sensao de estar abandonando um carneirinho indefeso a merc de um lobo faminto.
	Posso pelo menos estar presente?
	Prefiro que no esteja.
	Mesmo se eu prometer ficar calado?
	Como se isso fosse possvel!
	E se...
	Por favor.  melhor que Doug no o veja. Alm disso, esqueceu que tem uma reunio marcada com o time de futebol?
	Droga! Com tanta coisa acontecendo, esqueci completamente da reunio.  Cruzou os braos diante do peito e fitou-a.  Infelizmente no poderei ir.
	Ir, sim!  nessas reunies que voc aproveita o entusiasmo dos pais para incentivar os filhos nos esportes. Dean no tem a sua habilidade para descobrir voluntrios.
Dean Thompson, assistente de Mike, era excelente estrategista mas pssimo com os jogadores. Kelly estava certa. Quando se tratava de buscar o apoio dos pais, Mike era bem mais persuasivo. E o programa dependia quase que exclusivamente disso. No podia faltar  reunio.
	Obrigada por se preocupar comigo, mas sou bem crescidinha e sei como me cuidar.
	No gosto disso  resmungou ele, e depois voltou-se.  Lembra-se daquele golpe que eu e Jim lhe ensinamos antes do seu primeiro encontro?
	Como poderia esquecer? Foi muito til naquela noite. Por acaso lembra quem me arranjou o encontro com aquele idiota?
	Todos cometemos erros nesta vida. Ele iria passar o final de semana na cidade, e estava sozinho. Deveria ser apenas um jantar seguido de um cine-minha. Como eu poderia imaginar que o cara iria atac-la? Bem, mas quero que me prometa uma coisa...
	O qu?
	Antes que o canalha chegue, pratique aquele golpe.
	Pode deixar  disse ela, rindo.
O som da risada de Kelly era contagiante e o fez rir tambm. Ningum, alm dela, o faria divertir-se, mal-humorado como estava.
Kelly deixara de sorrir durante um certo tempo, aps descobrir que estava grvida. Felizmente conseguira recuperar a alegria. Se Hammond a deixasse triste novamente, Mike acabaria com ele. No permitiria que tornasse a mago-la.
Kelly estremeceu ao ouvir o carro se aproximando. Conhecia aquele som, um som que a fazia lembrar-se das inmeras noites que em vo esperara que Doug aparecesse. Lembrou-se das desculpas pouco convincentes que o ex-namorado dava, e que fingia acreditar s para no perd-lo. Jamais esqueceria a desiluso que sentiu ao descobrir que ele a traa com outras mulheres. E soube disso logo depois de ter certeza de que estava grvida.
Agora no queria mais ouvir as histrias de Doug. Seria uma conversa breve, mas, sem dvida, Kelly iria sentir-se muito mais segura se conseguisse evitar a nusea e o tremor nas mos. Controlando-se, abriu a porta assim que Doug alcanou a varanda.
	Ol, querida  cumprimentou ele, sorrindo.
	Ol.
Ele cruzou a soleira e parou. Tinha o porte de um modelo e parecia prestes a ser fotografado para um anncio de revista. Usava camisa de linho branca, gravata vermelha de seda e trazia o cabelo ruivo impecavelmente penteado. Pela expresso, parecia satisfeito por estar ali.
	O que voc quer?  indagou ela, gelada.
	Quanta frieza!  disse ele, erguendo a sobrancelha num ar de surpresa.
	Voc deixou bem claro, na ltima vez que conversamos, que no queria envolvimentos comigo ou com o beb. No tenho motivos para acreditar que mudou de idia. Portanto, o que quer comigo?
Doug pareceu consternado.
	Lamento ter dito aquilo, Kel...
	No me chame assim!
	Como desejar. S quero que saiba que estou arrependido. Precisa entender que fui pego de surpresa quando soube que iria ser pai e entrei em pnico.
	Voc, em pnico? No posso acreditar  Kelly balanou a cabea, incrdula, diante do cinismo daquele homem. Doug era frio como um peixe e conseguia dizer aquela mentira sem sequer ficar vermelho.
	Acredite ou no, depois do choque inicial fiquei empolgado com a idia  disse ele com o jeito afvel e humilde que certa vez a encantara.
	Por acaso parou para pensar no que eu senti quando soube que iria ser me? Foi a hora em que mais precisei de voc.
	E justamente para tentar consertar meus erros que estou aqui.
Kelly no sabia se ria ou se o esbofeteava.
	Demorou um pouco para vir, no acha?  disse, sem disfarar a contrariedade.  Seis meses, Doug! Estou grvida de seis meses e durante todo esse tempo voc nunca se preocupou comigo nem com o que poderia me acontecer. Passou por sua cabea como essa situao mudaria minha vida, meu trabalho?
	E mudou?
	Pode apostar que sim. A partir do final do semestre estarei desempregada.
Se Kelly no o conhecesse, poderia jurar que ele demonstrava preocupao sincera.
	Ento acertei em vir procur-la.
	Por qu?
	Quero que se case comigo, e que nosso filho tenha um pai.
Kelly ficou boquiaberta. Esperava que ele fosse dizer qualquer coisa, menos isso. Devia fazer exatamente o que Mike aconselhara: dar-lhe um chute. Mas, em vez disso, s conseguiu apertar as mos tremulas, tentando disfarar o nervosismo.
	Lamento, Doug, mas eu no o aceitaria como marido nem que voc fosse o ltimo homem na Terra.
Ele no demostrou nenhuma reao, e no rosto de traos perfeitos no havia indicao de que estivesse ofendido.
Pense bem. Voc acaba de me dizer que perder o emprego. Como pretende se sustentar, e ao garoto?
Garotol Ele falava como se o beb fosse algo impessoal, uma amolao qualquer! Kelly no o queria perto de seu filho, servindo-lhe de exemplo.
	Darei um jeito. Sozinha  declarou, decidida.
	Case-se comigo. Terei condies de cuidar de vocs dois. Minha carreira vai de vento em popa e estou acertando uma sociedade com um famoso escritrio de advocacia.
	Ah, sei...  disse ela, estreitando os olhos ao fit-lo.
O tempo e a distncia fizeram-na entender que Doug no dava a mo a ningum, a menos que pudesse tirar algum proveito. Ele jamais lhe dissera uma palavra de carinho e agora, sem mais nem menos, aparecia com aquela proposta absurda! Se ela no estivesse com tanta raiva, at que acharia engraado. Considerando tratar-se de uma mulher grvida, ter recebido duas propostas, de casamento no mesmo dia deveria ser um recorde. A proposta de Mike era tentadora, admitiu, mas a de Doug lhe causava nuseas.
O rapaz baixou os olhos por um instante, e depois voltou a encar-la.
	A empresa da qual quero me tornar scio  muito tradicional, conservadora. No hesitariam em aceitar um scio jovem, bem casado e com um filhinho. Mas no quero que pense que estou preocupado apenas com o meu sucesso. No foi por isso que a pedi em casamento.
	Claro que foi!  Kelly respirou fundo.  Agora quero que me escute, porque direi apenas uma vez que devia saber que um advogado que dorme com sua cliente no era confivel. Voc no passa de um mentiroso, e eu seria uma idiota se mais uma vez me deixasse levar por suas palavras bonitas. Saiba que nada neste mundo me faria casar com voc!
O brilho gelado nos olhos do ex-namorado a fez arrepiar-se.
	Ento no tenho escolha. Terei de pedir a custdia de meu filho.
	O qu?  Kelly deu um passo na direo dele, o corao disparado.  Mas voc nunca o quis! At sugeriu que eu o abortasse! E mais: afirmou que se eu insistisse em ter o beb, jamais o reconheceria como filho! E que eu no contasse com voc para nada!
	Mudei de idia, ora.
	Apenas por egosmo!
Doug ergueu as sobrancelhas com cinismo.
	Naquela empresa, a nica coisa que apreciariam mais num scio, alm dos laos familiares estveis, seria uma boa causa. E se essa causa envolve uma criana, melhor ainda. Sabe que no me lembro de nenhum caso recente de algum pai que tenha requerido a custdia de um filho ainda por nascer? Isso com certeza iria gerar uma boa publicidade para os negcios.
	Voc est blefando! Mas, se no estiver, no perca seu tempo. Nenhum juiz tiraria o filho da prpria me.
	Se essa me for solteira e estiver desempregada, e o pai for um homem bem situado financeiramente, pode apostar que sim. Quer arriscar?
Kelly, apavorada, apenas desejava que aquele crpula fosse embora e a deixasse sozinha.
	Voc  desprezvel. No sei como ainda lhe dou ouvidos. Por favor, saia daqui!  Apontou para a porta da frente e irritou-se ao ver a mo trmula. Doug andou at a porta e voltou-se antes de sair. Seus olhos era cruis quando disse:
	Pense no que lhe falei. Nossa unio seria conveniente para ns dois e para o beb. A alternativa seria... Bem, voc sabe  ameaou, encolhendo os ombros com descaso.
	No se atreva a pensar em ficar com meu filho!
	Pense bem na minha proposta. Ver que no perder nada se a aceitar.
	Saia da minha frente!
Assim que ele saiu, Kelly jogou-se sobre o sof. "O que vou fazer?", perguntou a si mesma. Mas no obteve resposta.
Mike voltou para casa logo aps a reunio. Tudo correra bem. Vrios pais concordaram em ajudar o programa de treinamento.
No entanto, ele no via a hora de voltar para casa. J passava das dez e meia , cada vez que tentava sair, um pai chegava para conversar. Esperava no ter dito nenhuma besteira, pois seu pensamento estava em Kelly e no encontro que teria com Doug. O homem era inescrupuloso e safado.
Ao se aproximar da casa, viu algum cado na varanda. Era Kelly. Desesperado, estacionou o carro e saiu correndo. Num segundo estava ao lado da amiga.
	O que houve? Ele a machucou? O que faz aqui fora?
	Doug quer me tirar o beb...  confessou ela, soluando.
	Ele o qu?
	Ameaou pedir a custdia do beb se eu no me casar com ele...  Kelly precisou se calar, de tanto tremer.
	No far isso. Voc est gelada. Vou lev-la para dentro e aquec-la.
Mike passou o brao em torno da cintura delicada e conduziu-a ao interior da casa. Fez com que se deitasse no sof. Por causa do frio, acendeu a lareira.
	Se voc no estivesse grvida, eu lhe ofereceria um drinque.
	Se eu no estivesse grvida, no estaria nessa confuso.  Mais calma, Kelly se levantou e aproximou-se do fogo, esfregando as mos.
	Vou preparar um chocolate quente  Mike avisou, e foi para a cozinha.
Colocou o leite para esquentar no microondas. Retornou  sala e a observou atentamente. O fogo na lareira iluminava o rosto delicado. Percebeu que a amiga estava tensa, infeliz, e no se perdoou por t-la deixado sozinha.
Embora estivessem frente a frente, teve certeza de que ela no podia v-lo: encontrava-se imersa em um mundo particular. Havia uma sombra sobre seus olhos, tornando-os opacos e sem vida. Quanto  expresso, sempre alegre, agora mostrava-se dominada pela angstia.
O chocolate ficou pronto. Mike entregou-lhe a xcara fumegante antes de agasalh-la com a manta azul, presente que ela lhe dera. Sentou-se ao lado e abraou-a carinhosamente, gostando daquela proximidade.
	Agora me conte exatamente o que ele disse.
	Doug quer a custdia...  Ela parou e deu um suspiro, segurando a xcara.  Primeiro, me pediu em casamento.
Mike ficou atnito.
 Voc recusou, no foi?
	Claro!  Kelly balanou a cabea, irritada.  jyias fui muito tola!
	Por recusar?
	Por ter revelado que perdi o emprego. Ele quer casar-se comigo para posar de homem correto, caso contrrio no conseguir tornar-se scio no escritrio de advocacia em que est trabalhando. Como recusei, ameaou pedir a custdia. Como no tenho condies de me manter, nem ao beb, receio que o juiz lhe dar ganho de causa.
	No pode ser. Deve haver uma sada.
	H uma sada. Estive pensando e esperando por voc h horas, e cheguei a uma concluso.
	Qual?
	Voc disse que seu pedido de casamento ainda estaria em p, se acaso eu mudasse de idia...  Fitou-o, temerosa.  Creio que agora eu realmente preciso de um marido.
Lgrimas brotaram-lhe nos olhos. Naquele momento, Mike teria feito qualquer coisa para ajud-la. Oferecera-lhe aquilo que ela mais precisava: uma famlia, um nome e segurana financeira. Isso mostraria quele crpula que ele no poderia mais amea-la e tampouco tirar-lhe o beb.
	Est querendo dizer que se casar comigo?
Quando Kelly fez um gesto positivo com a cabea, ele no ficou surpreso. Dera-lhe dez bons motivos para que entendesse que o casamento seria a soluo de seus problemas. Kelly recusara a proposta porque ainda sonhava viver um grande amor. No entanto, Doug Hammond aparecera e a assustara, trabalhando em favor de Mike. Estava ciente de que, se ela no se sentisse ameaada, jamais aceitaria ser sua mulher.
	No tenho escolha. Casada, terei meu emprego de volta. Alm disso, num tribunal, um casal ter mais chances de ganhar a custdia de um beb do que um homem solteiro. Especialmente um homem como Doug Hammond.
	Tem certeza de que  o que deseja? Se ainda tiver dvidas, podemos encontrar outra sada...
	Certeza absoluta. A menos que voc tenha mudado de idia. Afinal, um beb  uma grande responsabilidade.
Durante um breve instante Mike manteve os olhos fixos no fogo. Kelly o deixava feliz como h muito tempo no se sentia. No sabia o porqu de tanta felicidade, nem questionaria isso. Tampouco queria pensar na prpria convico de que as coisas boas duram pouco. S o que precisava agora era assegurar a Kelly que tu/io ficaria bem.
	Ento vamos combinar uma coisa. Quero estar casado quando o beb nascer, e desejo que meu nome conste na certido de nascimento.
Quando Kelly o fitou, havia um brilho suspeito nos olhos azuis.
	Voc quer que estejamos casados antes do parto para que meu filho no passe pelo que voc passou.
	Ningum chamar essa criana de bastarda. No enquanto eu puder evitar.
Durante anos Mike tentara apagar as tristes lembranas de sua infncia, mas ainda no conseguira livrar-se por completo das marcas que haviam ficado.
	Ser como voc deseja, Mike. Mas vai me pro 
meter uma coisa  disse ela, num tom rouco, como se estivesse prestes a chorar.
	Diga.
	Prometa que, seja l o que acontea no futuro, sempre ser meu amigo.
Isso era fcil.
	Prometo solenemente que nada no mundo conseguir destruir nossa amizade  prometeu ele, sorrindo.
	Ento temos um trato? Vamos nos casar?  indagou ela, e limpou a garganta. Mesmo assim ele percebeu quanto estava comovida.
	Temos um trato e vamos nos casar. Mas as pessoas no costumam apertar as mos, ou algo parecido, para selar um acordo?
Quando Kelly ergueu os grandes olhos, Mike sentiu-se assaltado por uma esmagadora emoo. Os lbios dela pareciam macios e doces, uma verdadeira tentao. Sem perceber ao certo o que fazia, ele abaixou a cabea e beijou-a.
O doce contato espalhou um intenso calor em seu ntimo, um calor que nada tinha a ver com o fogo ardendo na lareira.
Assim que se afastou, viu uma ruga de preocupao na testa de Kelly. Teria ela sentido o mesmo calor?
Calor? Como assim? Eram apenas amigos, e estariam se casando pelo bem do beb.
Kelly afastou-se e sentou-se na poltrona em frente, as pernas cruzadas.
	Mas, para que um acordo desse d certo, creio que precisaremos fazer alguns acertos  disse.
	Que tipo de acerto?  indagou ele, cruzando os braos diante do peito.
O olhar feminino pousou por um instante na boca sensual de Mike.
Precisamos estabelecer o tempo que ficaremos casados.
Incrvel! Eles mal haviam acertado o casamento e ela j falava em separao! Mike no soube por qu, mas aquilo o irritou.
	Ficaremos casados enquanto existir o perigo de Doug tomar-lhe a criana!
	Mas isso  muito vago. No quero que fique preso a mim o resto da vida.
	Quanto a isso voc no precisa se preocupar.
Ela o fitou, os olhos repletos de pesar.
	Eu o admiro muito, e nada faria para estragar nossa amizade.
	Ento, o que sugere?
	Enquanto eu tiver um emprego, poderei enfrentar Doug em qualquer tribunal. Posso ser divorciada e lecionar. S no posso ser grvida e solteira. Que tal quatro meses? At o reinicio das aulas?
	To pouco? As pessoas no vo desconfiar?
	Casamentos relmpagos vivem acontecendo  observou ela, encolhendo os ombros com indiferena.  Alguns duram apenas semanas.
Mike no concordava, mas no faria oposio. Se era o que ela desejava...
	Tudo bem. Quatro meses, mas talvez seja preciso estender esse prazo caso Doug insista com a custdia.
	Rezarei todas as noites para que ele consiga a sociedade antes disso. Nesse caso, no precisar do beb. Ento poderemos levar nossas vidas normalmente.
Mike no entendia a sensao desagradvel que o assaltava toda vez que ela falava em separao. No queria pensar no futuro.
	Devemos nos casar o mais rpido possvel. Se Doug comear a agir e nos incomodar, teremos as armas certas para nos defender.
	Concordo plenamente.
	Amanh cedo daremos entrada nos papis. Precisaremos contratar um advogado...
	Advogado? Por qu?  Kelly fitou-o com olhos indagadores.
	Um colega meu  especialista em direito de famlia. Precisamos de algum entendido no assunto para nos aconselhar caso Doug comece a dizer besteiras.
	Tem toda razo.
	Achou que haveria outro motivo?
Julguei que desejasse fazer um acordo pr-nupcial.
	Isso jamais me ocorreu.
	No o culparia se tivesse ocorrido. Depois de Carol...  Kelly parou de falar para analisar-lhe a reao. Ao perceber que o amigo no dava a menor importncia, prosseguiu:  Saiba que, quando nos separarmos, no vou querer nada seu. Est me fazendo um grande favor, e nem sei como vou poder retribuir.
	No quero nada alm da chance de poder ajud-la. Agora,  melhor marcarmos a data.
	Voc escolhe.  Kelly respirou fundo, sentindo-se estranhamente tensa.
	Que tal o prximo sbado?
	Acha que dar tempo?
	Tenho certeza que sim. A menos que voc queira algo mais do que uma simples reunio com os amigos para comemorar.
	Nas atuais circunstncias, uma cerimnia simples ser suficiente.
	Vamos precisar da cooperao de algumas pessoas.
	Vou ver se Susan pode ser minha madrinha. E quanto a seu padrinho?
	Pensei em convidar Cliff Bloomhurst...  disse ele, rindo.  Com ele como testemunha, no restar dvida quanto  devoluo de seu emprego.
Kelly sorriu, mais tranqila.
	Voc  demonaco, Michael Cameron. No bom sentido, claro.
	Ento, estamos combinados?
	Combinadssimos. A partir de sbado, ningum mais me segura!

CAPTULO IV

	Eu os declaro marido e mulher. Pode beijar a noiva.
O grisalho juiz de paz olhou para Kelly e Mike por sobre o culos apoiado na ponta do nariz.
Kelly acabara de se tornar a sra. Mike Cameron. Sentia-se mais uma impostora do que uma noiva; foi constrangedor prometer amar, honrar e cuidar de Mike por toda a vida sabendo que tudo no passava de uma farsa.
Encontravam-se nos jardins da residncia do noivo, sob o arco de trelia coberto de hera. Kelly observou o crepsculo refletindo na relva muito verde, enquanto a brisa suave agitava-lhe a saia do vestido de chiffon perolado. Mike estava mais atraente do que nunca no tradicional smocking preto.
Naquele momento, o que ela mais desejava era poder erguer a barra do vestido longo e correr para bem longe. Mas era tarde. Precisava pensar no beb.
O juiz pigarreou para lembr-la de que era hora de beijar o noivo. Mike virou-se em sua direo e ergueu-lhe o vu do rosto antes de inclinar-se em sua direo, nos lbios um sorriso encantador.
Capturada na armadilha daquele sorriso, Kelly ouviu as batidas frenticas do prprio corao. Aquele homem era um demnio de beleza! Quando se deu conta do que fazia, estava com os lbios colados aos dele.
Na verdade foi um beijo rpido, apenas um encontro fugaz de lbios, uma troca de calor. Durou um segundo, no mais do que isso. No entanto, provocou-lhe um arrepio por todo o corpo.
Quando aplausos e risos irromperam, Kelly soltou-se dos braos de Mike e respirou fundo. Sorriu para os convidados.
A sua esquerda estava Susan Wishart, a madrinha; o padrinho de Mike, Cliff Bloomhurst, parecia radiante ao lado do noivo. Todos acreditavam que eles se casavam por amor. Kelly emocionou-se diante do pensamento.
Foi ento que Susan lhe entregou o buqu de orqudeas com que Mike a presenteara pouco antes da cerimnia. Ela lamentava-se de, alm de ter se esquecido de providenciar algo novo, algo velho, algo emprestado e algo azul, tambm no se lembrara de providenciar as flores. Devia agradecer a Mike por ter pensado em tudo.
A voz do juiz a fez retornar ao presente.
	Senhoras e senhores, tenho a honra de apresentar-lhes o mais novo casal de nossa pequena comunidade: sr. e a sra. Mike Cameron!
	Sra. Cameron...  disse Mike, oferecendo-lhe o brao.
Kelly o aceitou e permitiu que ele a conduzisse ao ptio coberto. Haviam convidado cerca de vinte amigos para a cerimnia, realizada s seis da tarde, e todos compareceram para saudar o novo casal.
Pouco depois, Mike desculpou-se e foi conversar com um senhor que se encontrava na varanda. Logo em seguida os garons comearam a servir drinques e hors d'oeuvres, bem como champanhe.
Kelly ficou surpresa. De fato, Mike pensara em tudo; a cerimnia estivera perfeita e o mesmo acontecia com a recepo. Durante toda a semana ela se oferecera para ajud-lo, e durante toda a semana ele sugerira que ficasse tranqila porque estava tudo sob controle.
Kelly teria ficado tranqila se no o ouvisse repetir: "Nosso casamento ser perfeito, at nos menores detalhes" quando ambos sabiam que tudo no passava de uma farsa. No entanto, suspeitava que Mike andava injetando nele algo mais pessoal. Como aquele beijo. E o pensamento atormentou-a durante toda a semana.
Desejou ter tido a oportunidade de estabelecer onde cada um dormiria, mas infelizmente, quando cruzava com Mike, ele sempre tinha coisas urgentes a providenciar. Agora, em poucas horas teria de decidir isso.
	Qual  o problema? Voc est com cara de quem acabou de se lembrar que deixou uma panela no fogo  disse sorrindo Susan Wishart.  Ser que a responsabilidade do passo que acaba de dar j comea a pesar?
	No imagina quanto.
Susan era intuitiva demais para a paz de esprito de Kelly, que sentiu-se mal por precisar esconder a verdadeira razo daquele casamento.
	O pior j passou, amiga.  hora de relaxar e se divertir. Isso parece estar delicioso  comentou Susan, pegando um salgadinho da bandeja que o garom ofereceu.
Relaxar? Era fcil dizer, pensou Kelly. Passar a noite sozinha com Mike no era bem sua idia de relaxamento. Desde quando haviam decidido se casar, vinha-o observando atentamente. Cada vez mais se dava conta de quanto era atraente, e como estava suscetvel a seu charme esmagador.
Tudo se tornara to confuso... Convivera com Mike por vrios anos e, tirando a paixo que sentira na adolescncia, jamais pensara nele como homem. No entanto, ultimamente, no conseguia tir-lo da cabea. Em especial naquele instante, em que o via atraente como nunca naquele smocking.
Lembrava-lhe o beijo, percebia-lhe a virilidade perturbadora e comeava a se perguntar se, vivendo sob o mesmo teto, conseguiria manter os limites da amizade. Tinha medo de que o relacionamento se tornasse mais pessoal, mais sensual. Estava determinada a evitar tudo o que pudesse arruinar aquela amizade perfeita.
Tentava consolasse. Se aquela forte atrao fosse causada pela reao qumica de seu corpo, na certa desapareceria quando tudo voltasse ao normal, aps o beb nascer.
Deciso tomada, Kelly relaxou e sorriu para Susan.
	Mike fez um excelente trabalho, no acha?
	Especialmente levando-se em conta a rapidez com que tudo aconteceu. Posso dizer uma coisa?
	Claro...
	Cliff me matar se souber que comentei com voc, mas h boatos circulando sobre vocs dois. Andam dizendo que Mike  o pai do beb, e sei que  mentira.
	Disso eu j sabia. O que mais?
	Andam dizendo tambm que ele se casou com voc para ajud-la a manter o emprego.
Kelly pegou um drinque para tentar disfarar o corado do rosto.
	Isso  um absurdo  disse.
	Tambm acho. Mas, como tudo aconteceu exatamente aps Liz McCutcheon ter entrado em ao, as pessoas estranharam. Mas sei que existe algo mais.  preciso ser cego, surdo e mudo para no perceber que Mike a adora.
	Espero que o casamento no estrague isso  murmurou Kelly em voz baixa.
	O que disse?
	Nada.
Ela desejava poder se abrir com Susan, confessar o verdadeiro motivo daquele casamento-relmpago. Mas no podia. Havia feito um acordo com Mike, de manter as aparncias, por causa da ameaa de Doug. Se precisassem ir ao tribunal, no queriam que ningum ligasse a poca do casamento  briga pela custdia. Para todos os efeitos, eram um casal feliz e apaixonado.
	E sem sombra de dvida o casamento mais romntico que j presenciei  disse Susan, emocionada.
	To romntico quanto possvel, j que a noiva est grvida de seis meses  comentou Kelly, passando a mo pelo ventre.
	 exatamente isso que torna tudo to romntico. Mike me faz lembrar um cavalheiro andante em sua armadura, lanando seu manto sobre a lama da opinio pblica para proteger a mulher que ama das ameaas...
Kelly riu.
	Voc deve andar lendo muitos romances ultimamente...
	E o que voc esperava de uma professora de literatura?
 Acho que est na hora de algum pensar em transferi-la para a rea de biologia. O cheiro do for-mol acabaria com essas estrelinhas em seus olhos.
	Falo srio. Mike realmente a ama. Tem conscincia da prpria sorte, minha amiga?
	Sorte? Sorte de quem?  perguntou Mike, passando o brao pela cintura cada vez mais larga da esposa.
	De Kelly, ora! E de quem mais seria?  respondeu Susan.
	Voc diz isso porque eu no quis me casar na Capela do Amor, em Las Vegas?
	Voc o qu?  indagou Kelly, encarando-o. No conseguiu conter o riso.
	Voc sabe... Nos grandes hotis de Las Vegas h sempre um juiz de paz de planto pronto para realizar casamentos-relmpagos. Ele aguarda os noivos em salas com rosas de non na porta e cestos de flores de plstico, e com cadeiras de plstico em frente ao altar tambm de plstico. Creio que somente o juiz no  de plstico...
	No nosso caso, a palavra "artificial" talvez seja mesmo a mais apropriada  murmurou Kelly.
Susan fitou-a com ar intrigado.
	O qu?  perguntou.
Kelly fez fora para sorrir.
	No foi nada. Desculpe. Deve ser o cansao. Tem sido uma semana estressante. Mas veja, o jantar vai ser servido. Vamos entrar?
Enquanto Mike a conduzia  sala de jantar, Kelly sentia-se estranhamente abalada. A presena daquele homem desencadeava-lhe reaes intensas.
Mais uma vez tentou se convencer de que eram causadas pelos hormnios. Em trs meses na certa se livraria do problema.
Essa era a boa notcia. A m notcia era temer que, naqueles trs meses, a atrao que sentia por Mike fugisse a seu controle.
Descala e grvida.
Mike observava Kelly, em p  porta da varanda, despedindo-se dos Wishart. Cruzou os braos sobre o peito. Horas atrs tirara o palet e arregaara as mangas da camisa at os cotovelos. Ela tirara os sapatos e estava ali, encostada ao parapeito da varanda, esfregando o p direito envolto na meia transparente. Com os olhos estreitados, Mike estudava-lhe cada um dos movimentos. Kelly nem sequer imaginava quanto estava sensual.
	Vamos, Susan. J est ficando tarde.  Brad Wishart puxou a esposa pelo brao em direo  sada.  Fomos os primeiros a chegar e os ltimos a sair. Mais cinco minutos e entraremos para o Guinness pela mais longa permanncia numa festa.
	No precisam ir to cedo...  disse Kelly.
Mike lanou-lhe um olhar enviesado. Podia jurar que havia um tom de desespero em sua voz. Susan sorriu para o marido, deixando-lhe a deciso.
	Venha, querida. Eles acabaram de se casar e desejam ficar sozinhos. Voc encontrar Kelly todos
os dias, na escola. A ento podero colocar os assuntos em dia.
Susan abraou a noiva e beijou Mike no rosto.
	Desejo-lhes muitos anos de felicidade. Boa noite, sr. e sra. Cameron.
	Boa noite  disseram os dois, em unssono.
Aps a partida dos Wishart, Kelly fechou a pesada porta de madeira e recostou-se nela.
	O que h?  indagou Mike ao ver uma expresso preocupada naqueles imensos olhos verdes.
	No gosto de enganar essas pessoas. Ficaremos juntos apenas alguns meses, e no anos. E quanto  felicidade...
	No precisamos ser infelizes, no acha? E tenho certeza de que vamos nos divertir bastante enquanto estivermos casados  disse Mike, irritado.
	Vamos nos divertir? Como assim?  indagou Kelly, cheia de suspeita.
	Esquea. No vamos nos divertir. Esta  a casa dos horrores, onde existe apenas sofrimento. Como posso ter sido to tolo a ponto de imaginar que dois amigos poderiam conviver normalmente?
Kelly sorriu, meio sem graa, e olhou em direo  sala, onde estavam os presentes que haviam recebido.
	Sinto-me uma impostora. No tenho coragem nem de abrir aqueles presentes.
	Mas precisar ter. As pessoas esperam nossos agradecimentos. E no se pode fazer isso de maneira genrica. Temos de agradecer pelo faqueiro ou por qualquer outra coisa que nos tenha sido enviada.
	Tem razo. Mas, se no se importa, eu gostaria de fazer isso amanh. Boa noite.
	Aonde voc pensa que vai?
	Para casa.
	Esta  a sua casa  disse ele, mantendo os braos abertos.
	Prefiro ir para a casa de hspedes. Detestaria invadir sua privacidade.
	Privacidade? Nada tenho a esconder.
	S porque nos casamos, no significa que seremos obrigados a morar juntos. Minha casa  confortvel, bem-arrumada...
Mike colocou as mos no bolso da cala e tentou controlar a irritao.
	Assim no vai dar certo.
	Por que no?
 bvio! Recm-casados vivendo em casas separadas?
	Ningum saber.
	H sempre algum que percebe esse tipo de coisa. J pensou no que acontecer se algum ligar querendo falar com voc?
	Voc poderia fazer a gentileza de pedir para esperar um minuto e ir me chamar.
	Ei, o que h com voc, Kel?
	Nada...
	Ah, ? Se no h nada que a preocupa, eu sou a lady Di. Por acaso est com medo de dormir comigo? Desculpe, no comigo, mas sob o mesmo teto?
	No diga bobagens! Por que eu teria medo de voc?
	Tambm no sei, s sei qe est. Mas no se preocupe, voc j est grvida.
	Engraadinho.
	Se no est com medo de mim, ento, o que ?
	Nada. Acontece que tudo o que eu tenho continua na casa de hspedes, inclusive minhas roupas. Concordamos que nosso casamento duraria apenas alguns meses. Pareceu-me tolice trazer tudo para c e depois levar de volta, quando nos separarmos...
	Mal acabamos de dizer "aceito" e voc j fala em separao? Est agindo como se eu estivesse com alguma doena contagiosa!
	Desculpe. No tive a inteno.
	Se algum comear a suspeitar qu este casamento no  real, vai ser muito embaraoso para ns dois.
	Por favor, defina esse "real".  Kelly mordeu o lbio, os olhos repletos de dvidas.
Jamais o fitara com outra coisa nos olhos alm de confiana, e Mike no gostou do que viu.
	Primeiro vamos esclarecer uma coisa. No sou como Doug, e jamais ocorreu-me tirar vantagem de voc.
	Oh, Mike!  disse ela, aproximando-se. Pousou a mo sobre seu brao, pesarosa.  Desculpe se o ofendi. No quis dizer isso. Sei melhor do que ningum que no  como Doug. No  de voc que tenho medo,  de mim...  Quando percebeu o que dissera, Kelly arregalou os olhos.
	Tem medo de qu?
	No importa.
	Importa sim! Sou seu amigo e esta  sua casa pelo tempo que precisar ou desejar. Quero que se sinta segura e  vontade a meu lado.
	Sei disso e estou bem.
	To bem quanto um leo enjaulado. Mas, se isso faz com que se sinta melhor, o quarto de hspedes est arrumado para voc.
	Est?
	Sim, est.
Ao v-la to sonolenta, suave e sensual, tudo o que Mike desejou foi lev-la para sua cama. Mas no seria canalha a esse ponto.
Estava cansado de dormir sozinho e a queria, mas no se dera conta de como isso era forte at o momento em que Kelly ameaara ir dormir na casa de hspedes. Por um segundo, julgou perceber nos olhos verdes algo mais do que simples amizade. Mas esse brilho jogo em seguida foi substitudo pelo medo.
Ele no suportava aquilo. Hesitara em pedir  empregada para arrumar o quarto de hspedes, mas agora via que fizera a coisa certa. Jurara que no se casaria novamente, mas se casara. Apenas porque seu relacionamento com Kelly era diferente. Mas no se tratava de amor. Amor no existia.
	Ento no se importa de dormir em quartos separados?  perguntou ela.
	No.
	E aquela conversa sobre solido? Sua cama vai continuar vazia.
	Aquilo foi papo furado.
	Tem certeza?
	Alguma vez j menti para voc?
	Ento, est bem. Ficarei no quarto de hspedes.
	Venha. Vou ajud-la a trazer suas coisas da casa de hspedes. Pelo menos o que for usar esta noite.
Kelly ficou na ponta dos ps, os olhos brilhando.
	Quer se abaixar um pouco para eu poder lhe dar um beijo?
Sem tirar as mos dos bolsos, ele se inclinou apenas o suficiente para que aqueles lbios macios atingissem seu rosto. S esperava que ela no tivesse notado sua respirao acelerada. No queria assust-la. Se cedesse aos impulsos, iria peg-la nos braos e a beijaria. Endireitou o corpo e piscou.
	Vamos l, sra. Cameron. Vamos pegar seu pijama e sua escova de dentes.
Kelly levantou-se no meio da noite e desceu a escada. No conseguia dormir. Casa diferente, cama diferente, cheiros diferentes e, principalmente, pensamentos perturbadores.
Foi at a cozinha e acendeu a luz. O restante da casa estava s escuras. Abriu a geladeira, pegou o leite e despejou um pouco na xcara. Aps coloc-la no microondas, para esquentar, encostou-se no bar e ficou  espera, para desligar o forno antes que o bip soasse. No queria que Mike acordasse.
Ele era a razo principal de sua insnia.
Quando a beijara, na cerimnia, ela percebeu que era desejada. Mas, apesar de Mike ser jovem, saudvel e de sangue quente, concordara com um relacionamento platnico. Kelly podia imaginar quanto aquilo lhe custava. Na prtica, ele abandonara os prprios sonhos por sua causa. Era um amigo de verdade. S sendo louca perderia uma amizade como aquela. Gostaria de retribuir o grande favor que ele lhe fazia. Mas como?
	Algo errado, Kel? ,
Ela voltou-se com o corao em disparada.
	Mike?
	No est conseguindo dormir?
	Onde voc estava?
	Na sala.
Como ele estivesse atrs do bar, Kelly s o via da cintura para cima. Mas aquele trax nu foi suficiente para fazer seu sangue fervilhar. Como se tivessem vontade prpria, seus olhos fixaram-se na pelugem mscula do peito musculoso, para em seguida descer em direo ao abdome firme. Esperava sinceramente que ele estivesse vestido da cintura para baixo, porque no queria v-lo nu. Estava ali por causa de um erro e no cometeria outro, ainda maior.
	Por que foi dormir no sof?  indagou ela.
	Nossa cama... quero dizer, minha cama est cheia de arroz.
Seu olhar deslizou at a pinta que Kelly tinha sob o queixo. Ela desejou ter colocado o roupo sobre a camisola, e instintivamente endireitou os ombros.
	E arroz no foi tudo. Venha ver o que sua amiga Susan aprontou.
	Como sabe que foi ela?
	E quem mais poderia ser? No percebeu como ela sumiu um tempo durante a festa?
	Sim, mas...
	Venha at o quarto. Vou lhe mostrar.  Kelly fechou os olhos, o rosto ardendo. Assim, se Mike estivesse nu, ela no o veria.  Relaxe, Kel. Estou de cuecas  disse ele, parecendo divertir-se com a situao.  Venha comigo.  Estendeu-lhe a mo enquanto Kelly respirava aliviada.
Ela hesitou um pouco. Se as coisas fossem diferentes, estaria dormindo com ele. Sem que pudesse evitar, sentiu-se terrivelmente deprimida.
A sute principal era enorme, e a cama, king-size. Havia armrios em duas das paredes, duas cadeiras e uma mesa diante da janela, e ainda sobrava muito espao. Kelly viu arroz espalhado por todo o quarto, inclusive sobre a cama. Tiras de papel crepom e bales de gs colorido cruzavam o teto de ponta a ponta.
	Susah deve ter tido um trabalho para fazer isso...  comentou ela, meio sem graa, enquanto olhava em torno do aposento.
Kelly aproximou-se da cama para ver o estrago. Quando Mike chegou perto, sentiu seu calor tras-passar o tecido da camisola.
	Estou surpreso por ela ter se esquecido de prender sinos sob o colcho  brincou ele.
	Sinos? Para qu?  Kelly fitou-o, indagadora, mas corou violentamente ao entender a piada.  Quer dizer, se ns...
	Isso mesmo.  Mike tinha a voz rouca.
	Acho que precisamos conversar sobre algo.
	Era por isso que estava esquentando leite a essa hora da madrugada? O que ter de to urgente para me dizer?
	Queria que soubesse que, se desejar sair com outras mulheres, ou traz-las para casa...  fez um gesto com a cabea em direo  cama  ... eu nada tenho contra.

CAPITULO V

Mike no pde acreditar no que acabara de ouvir.
	O qu? Ser que escutei direito?
	Eu disse que entenderei se estiver interessado em alguma mulher e desejar sair com ela.
	Droga, Kelly! Sou um homem casado e no pretendo trair minha esposa.
	No seria traio, uma vez que estou concordando. Voc  jovem, cheio de vida... No seria justo se ficasse preso a mim. Estou tentando apenas ser sensata.
	Confesso que estou pasmo. Como pode sugerir que eu saia com outras mulheres?
E por que no? Este no  um casamento tradicional.
	No, mas moramos numa tradicional cidade do interior, com valores e comportamentos igualmente tradicionais. Veja na escola, por exemplo.
Condenam at professores que tenham casos amorosos, mesmo sendo solteiros! Voc, mais do que ningum, conhece o caos que uma situao dessa pode gerar. Na certa todos iriam me criticar! Pobrezinha da Kelly, sozinha em casa com aquele barrigo, e o marido circulando com outra... Que loucura!  Mike balanou a cabea.
A mgoa refletia-se nos olhos de Kelly, que os abaixou e cruzou as mos sobre os joelhos.
	No fale assim. Est me magoando.
	Lamento, mas estou perdendo a pacincia com essa histria. No quero nem pensar no que Liz McCutcheon diria se me visse com outra mulher.
	Tente ser discreto, ora.
	A chance de conseguir esconder algo assim  uma em um milho.
Mike j tinha vivido quase tudo na vida, mas isso... Ouvir a esposa sugerir que sasse com outras era demais. Ainda mais chocante era dar-se conta de que, para ele, no existia ningum alm da linda grvida  sua frente. Talvez estivesse mesmo enlouquecido.
Sentou-se ao lado dela, mais calmo, e a fitou.
	Se eu fosse pego tendo um caso, Doug faria a festa. Iria massacrar voc com ameaas. J pensou no que aconteceria com suas chances de obter a custdia do beb? Foi justamente por isso que nos casamos, lembra-se?
Kelly suspirou e disse, num tom cansado:
	Quando fiz a sugesto que voc achou to absurda, pensava em mim e no beb. Tenho medo que acabe se aborrecendo com a situao e no quero perder sua amizade.  Abaixou a cabea, fazendo o cabelo cair no rosto como uma sedosa cortina.
	Alguma vez menti para voc?
	No que eu me lembre...
	Pois . No costumo mentir nem esconder coisas de meus amigos. Se eu precisar de uma mulher, voc ser a primeira a saber. Certo?
	Certo.
	Que tal colocar um pouco de chocolate naquele
leite quente?
Mike sorriu, um sorriso atraente. A frieza que ela vira em seus olhos momentos atrs desaparecera.
	Boa idia. Quer um pouco? E bom para relaxar.
	Aceito.
Kelly o fitou e sorriu. Sua beleza angelical aqueceu cada pedacinho do corao masculino. O que sentia por ela era mais do que amizade. Mas no ousaria confessar isso, porque provavelmente ela sumiria. Jamais mentira a ela, mas precisava esconder-lhe isso.
Eles s retornariam  escola em agosto, para o reinicio das aulas. A demisso de Kelly fora esquecida aps o casamento, que completava um ms e meio.
Os dois tinham estabelecido uma confortvel rotina. Mike era o companheiro perfeito de sempre, atento, divertido e surpreendentemente bem organizado. Ela no poderia querer mais.
No entanto, no que se referia  parte emocional, no podia dizer o mesmo. Lgico que dividir a casa com Mike gerava um certo grau de intimidade. No conseguiam evitar algumas situaes bastante constrangedoras. Lavavam a roupa juntos e desempenhavam uma intricada coreografia na cozinha ao preparar o almoo e o jantar. Risos e pequenos desentendimentos faziam parte do dia-a-dia. Kelly comeava a achar impossvel ignorar a maneira como seu corao se acelerava toda vez que o marido entrava em casa, e a angstia que sentia sempre que ele se atrasava.
Estava ciente de que tais reaes estavam longe de ser creditadas apenas  amizade. Na verdade, encontravam-se perigosamente prximas  atrao que uma mulher sentia pelo homem que amava. O que seria dela quando precisasse deix-lo, aps o nascimento do beb? O pensamento a aterrorizava.
Naquele momento Kelly aguardava pela mdica, que viria fazer-lhe o exame de ultra-sonografia. Deitada, olhou para o lenol sobre a barriga e sorriu.
	Pareo uma montanha coberta com um lenol.
Mike caiu na risada.
	Uma montanha bastante atraente, devo confessar...  declarou ele, e os lbios sensuais curvaram-se num sorriso tentador.
O corao de Kelly agitou-se. A cada dia ficava mais afeita aos encantos daquele homem.
	Tenho espelho, seu mentiroso. Sei que estou gorda e feia.
	Essa  boa! Se discordo, voc me chama de mentiroso, diz que preciso de culos. Se concordo, quer me esganar.
	Ser que fiquei assim to irritante?  perguntou ela, temendo estar exagerando, pressionando-o demais.  Oua, voc no precisava ter me acompanhado. Essas visitas ao mdico so bem maantes.
	Estou aqui porque quero. E saiba que seu corpo est perfeito para uma grvida que vai dar  luz em menos de dois meses. Est saudvel, bem-dis-posta e muito bonita, se me permite dizer.
	Oh, como eu gostaria que fosse verdade...  resmungou ela.
Nesse instante a mdica entrou na sala de exames.
	Sr. e sra. Cameron, meu nome  Stephanie Daniels. Esto prontos?
	Sim  respondeu Kelly.
	A luz ser apagada para melhorar a imagem. Tirarei algumas fotografias, mas no usarei luz para no atrapalhar sua viso do beb  comunicou ela, dirigindo-se a Mike.
Kelly no pde deixar de notar que a mdica agia como se ele fosse o pai do beb. Achou interessante deixar as coisas como estavam. No havia necessidade de corrigi-la.
A sala ficou s escuras. A nica claridade vinha do monitor. Kelly observou a expresso de Mike.
	O barulho que esto ouvindo  do aparelho  explicou a mdica ao pegar um pequeno tubo.  Voc agora vai sentir um frio na barriga, literalmente. Aplicou o gel.  Agora vou pressionar o sonar contra sua barriga. No vai doer. Preciso encontrar a melhor posio.  Stephanie sorriu e tentou se concentrar em seu trabalho.
Com a barriga parcialmente exposta, Kelly ficou grata por as luzes estarem apagadas. Quando voltou-se para Mike, notou que -ele tinha os olhos fixos na tela do monitor, totalmente fascinado com o que via.
	Incrvel! H de fato uma pessoinha a dentro!
	No esperava que eu estivesse assim to gorda por nada, no ?  Kelly sorriu.
Stephanie moveu o sonar, e ouviu-se um clique quando ela tirou uma foto do beb. Explicou que o feto estava no tamanho exato para o tempo de gestao. O coraozinho parecia bem, os rgos internos tinham um tamanho apropriado, ps e mos perfeitos.
A mdica examinava atentamente a tela.
	Querem saber o sexo?  indagou.
	No  disse Mike.
	Sim  respondeu Kelly.  Quero saber se devo comprar roupinhas azuis ou cor-de-rosa.
Mike apertou-lhe a mo.
	A escolha  sua  disse. Kelly voltou-se para a mdica.
	Sim, ns queremos saber.
	Devo advertir que no  cem por cento confivel. Alm disso, a posio da criana no  das melhores. No me culpem se houver algum engano...
	E qual  seu palpite, doutora? Menino ou menina?
	Menino.
O corao de Kelly deu um salto. Um menino! No sabia por qu, mas era exatamente o que queria ouvir. Olhou para Mike, esperando-lhe a reao. Ele no se manifestou.
	O que houve? No era o que esperava?  indagou.	
	No foi nada. Esquea.  Mike balanou levemente a cabea.
	Conheo voc, Cameron. Diga logo o que h.
Ele sorriu.
	Tolice minha. Eu esperava que fosse uma garotinha parecida com voc.
Os olhos de Kelly umedeceram.
	Essa foi a coisa mais doce que voc me disse.
	Se eu fosse voc, no sairia de perto dele  comentou a mdica, sorrindo de modo radiante.
Kelly no respondeu. No sabia o que dizer. No poderia mant-lo para sempre junto de si. Se o fizesse, perderia sua amizade. Sentiu um n formar-se na garganta. No contava com esses sentimentos perturbadores.
Suspirou. Pelo menos no haviam tido notcias de Doug. Talvez ele tivesse decidido que a criana no valeria o sacrifcio. Esperou de corao que estivesse certa. Jamais o deixaria aproximar-se de seu filho.
Se tudo corresse bem, assim que o garotinho chegasse, eles se separariam discretamente. No haveria trauma emocional para o beb, que seria muito pequeno para entender o que se passava, e ela preservaria a amizade de Mike. Tudo transcorreria conforme o planejado.
	Mais dois meses...  sussurrou.
No caminho de volta para casa, Mike observava Kelly, que, distrada, olhava a rua atravs da janela do carro. Como conseguia ficar to calma quando carregava um ser humano dentro de si? Era uma enorme responsabilidade.
	O ar-condicionado est muito frio?  indagou ele, ajustando o controle.
	Para mim est timo.
	Sente-se bem? Parece um pouco cansada.
	No mais do que de costume  Kelly respondeu, encolhendo os ombros com indiferena.
	A mdica disse que o beb j est formado, e que a partir de agora vai ganhar peso. Voc tem se alimentado bem?
	Creio que sim  disse ela, olhando para a barriga.
	Mas a dra. Daniels falou...
	Oua, qual  o problema? Ela garantiu que est tudo bem. Voc est me deixando zonza com tantas perguntas!
Mike balanou a cabea, pensativo. Como explicar o que sentia?
	Acho que pela primeira vez a coisa me assaltou.
Fiquei impressionado com o que vi.
Kelly sorriu suavemente.
	O fato de existir uma pessoazinha aqui dentro querendo sair o impressiona tanto?  brincou.
	.
	Mas voc j o sentiu se mexer. Ele  real!
	Sei, mas aquela movimentao toda...
	Movimentao? Quando esse sujeito decide se mexer aqui dentro, mais parece um terremoto!
	Isso  bom. Significa que  forte e sadio.
Kelly cruzou as mos sobre a barriga e o estudou por um momento.
	A est um Mike Cameron que eu no conhecia. Quem diria que uma simples ultra-sonografia o abalaria tanto?
	Pode rir, se desejar. Pois foi a primeira vez que tive uma experincia to... marcante. Foi...  ele tentou encontrar a palavra certa  ... assustador.
	Tem razo. E mesmo assustador.
	Desde o incio ele se tornou real para voc, no foi? Afinal, no precisava t-lo. Havia outra alternativa, muito mais cmoda.
Kelly assumiu uma expresso sria.
	Est enganado. Jamais pensei em alternativas. Eu precisava t-lo.
Ao chegar em casa, Mike desligou o motor do carro e se voltou para ela.
	Preciso cumpriment-la, Kel. Eu a admiro muito. Vai ter um trabalho com o beb. Mamadeiras, fraldas, adivinhar o que ele est sentindo. E vai ter que fazer tudo isso sozinha...
	Sim... E da?
	Eu gostaria...
	Voc  meu amigo, o nico verdadeiro amigo que tenho. E para no estragar isso  que pretendo me mudar at setembro. Pretendo criar meu filho sozinha.
Mike agarrou a direo com fora, sem saber direito o que sentia. "Raiva" era a emoo mais prxima. Kelly nada fizera alm de lembr-lo de que tinham um acordo. E no podia queixar-se, porque a idia fora sua.
Mas agora tudo mudara e ele j no tinha mais certeza de que cumpriria aquele acordo. Quase confessou-lhe isso, mas a expresso da esposa o fez recuar. Ela no queria ouvir mais nada, e ele achou melhor respeit-la.
	Mas eu poderei visit-la de vez em quando, no ?
	Claro. Tenho certeza de que o pequeno Sam vai exigir muitas visitas.
	Vai chama-lo de Sam?
Kelly assentiu.
	E um nome forte, e quero que ele seja forte como o tio Mike.
Ele tentou adivinhar que conversa era aquela de "tio" Mike. Ser que Kelly desejava impor alguma distncia?
Quando a viu querer soltar o cinto de segurana, apressou-se em ajud-la. No era hora de discutir aquela questo. Vira com seus prprios olhos que o bem-estar da me e do beb estavam relacionados e nada faria para perturb-la. Aguardaria uma oportunidade melhor para conversar. Mas, fosse como fosse, de uma coisa ele tinha certeza: seria o momento de colocar as cartas na mesa.
A campainha tocou aps o jantar. Kelly e Mike jogavam cartas.
	Deixe que eu atendo. Ela se levantou e espreguiou-se, ainda com as cartas na mo.  Preciso me mexer um pouco.
	Largue as cartas a  sugeriu Mike.
	Nada disso, Cameron. Est querendo ver meu jogo?
	Eu? Sabe bem que eu no sou disso.
Ignorando-o, ela foi abrir a porta. Estava descala
e o cho pareceu-lhe gelado. Atravs do vidro da porta, avistava-se a silhueta de uma mulher.
	Pois no?  disse, abrindo a porta.
Deparou com uma loira atraente, que trazia um envelope na mo.
	Voc  Kelly Walker?
	Isso mesmo.
	Vim trazer-lhe isso. Preciso que me assine este recibo.
Kelly pegou o envelope e assinou o recibo. A loira agradeceu e afastou-se.
O que seria? Kelly tentou adivinhar. Fechou a porta e virou o envelope. No remetente estava escrito Burns, Banks, Boyle e Smith Advogados Associados, o que fez formar-se um n em sua garganta. Abriu o envelope e tirou os papis de dentro dele, tensa.
Doug cumprira sua promessa.
	Quem era?  perguntou Mike da outra sala.
Ela no conseguiu responder. O terror travou-lhe a voz.
	Kelly?  No momento seguinte, Mike estava a seu lado.  O que houve? Est branca como cera.  Mike notou-lhe as mos trmulas ao entregar-lhe os papis.  So de Doug. Ele est pedindo a custodia do beb  comunicou aps ler rapidamente.
	Maldito! No permitirei que vena. Lutarei contra ele com todas as armas que possuo.  Olhou para Mike.  E que armas possuo?
	Quando falei com o advogado, fui aconselhado a no tomar nenhuma atitude, a esperar. Ele tem certeza de que Hammond est blefando.
	No posso confiar nisso  constatou Kelly, olhando para os papis.  Preciso fazer algo... e sem perda de tempo.
Uma dor intensa percorreu-lhe o abdome. Ela gemeu e se curvou.
	O que houve?  perguntou Mike, apavorado, e correu para acudi-la.
	No sei... Deve ser uma contrao  disse ela, tentando respirar.
	O beb j vai nascer?
	 muito cedo.
	Consegue caminhar?
	Sim..._ A dor diminuiu e ela endireitou o corpo.
Mike conduziu-a ao sof e a fez deitar-se, com almofadas sob a nuca. Jogou as cartas no cho e sentou-se na mesinha de centro, encarando-a, preocupado.
O ventre de Kelly distendeu-se novamente e ela gritou de dor.
	A vem outra!
	So contraes? Se forem, precisamos marcar o intervalo entre uma e outra? O que posso fazer?  perguntou ele, desesperado.
Pela segunda vez em menos de dez minutos, Kelly temeu pela segurana do beb. Sabia que j estava formado, mas seu corpinho ainda precisava de tempo para se fortificar. Era cedo para nascer.
Sem poder evitar, seus olhos encheram-se de lgrimas. A sala comeou a girar.
	Se algo acontecer ao meu filho...
	Ele vai ficar bem, Kel  tranqilizou Mike, segurando-lhe as mos.  Respire fundo.
	E se eu estiver entrando em trabalho de parto? E se Sam nascer antes do tempo? Estou com medo de que algo d errado...
	Ainda no  hora. Voc est estressada por causa daquele maldito canalha...  Interrompeu o que ia dizendo, mas em seguida continuou:  Precisa apenas se acalmar, e nada de mal acontecer.
	Doug esta planejando ficar com meu filho e no sei o que fazer para impedi-lo.
	Deixe Hammond comigo. Pense apenas em voc e no beb. Pretendo derrot-lo com suas prprias armas.
	Ser uma batalha judicial. Ele est acostumado a isso.
Embora ainda em pnico, Kelly sentiu que as dores diminuam. Comeou a sentir-se ligeiramente melhor. Talvez Mike estivesse certo, e tudo no passasse de uma reao ao choque que recebera.
	Processos desse tipo so arquivados todos os dias. V por mim, Kel. Est se preocupando  toa.
	Se eu acreditasse que Doug est realmente preocupado com o beb, no seria to doloroso. Mas sei que seu nico interesse  a sociedade no escritrio. O que ser de mim e do Sam se ele vencer? Outra contrao fez com que Kelly apertasse com fora a mo de Mike.
	Mais uma?  perguntou ele.
	Esta no foi to forte.
	Procure relaxar.
	No consigo. No enquanto souber que Doug est tentando me tirar o beb.
	Confie em mim. Estou lhe dizendo que ele nunca vai tirar esta criana de voc.  A voz de Mike soou dura como granito.
Kelly assustou-se com sua expresso ameaadora. No entanto, o que mais a apavorou foi a vontade de v-lo liqidar Doug.
Sentia-se culpada por us-lo daquela forma. Mas ento lembrou-se de que a idia do casamento partira dele. Isso, porm, no lhe dava o direito de abusar.
	Se me der o nmero do telefone de seu advogado, ligarei para ele e cuidarei pessoalmente do assunto.
	Pode esquecer isso!
	Por qu?
	Voc est muito emotiva. No tem condies de falar com ningum.
No era desse modo que Mike costumava agir. Ele agora tentava tir-la da jogada. As coisas entre os dois de fato estavam mudadas. Amigos conversam e enfrentavam juntos os problemas.
Suas nicas alternativas eram assumir inteira responsabilidade pela situao, rompendo o acordo e arriscando-se a perder o beb para Doug, ou deixar que Mike cuidasse de tudo, perdendo o melhor amigo que tivera na vida.
De todo modo, talvez houvesse outra sada, pensou ela, sentando-se no sof.
 Se voc no deixar que eu cuide disso, nosso trato estar desfeito.

CAPTULO VI

Mike fitou-a, atnito.  Mas do que  que est falando?
	Ns nos casamos por vrios motivos, e o mais importante deles era fazer frente s ameaas de Doug juntos.
	Sim, e da?
	E da? Voc est querendo me excluir e fazer tudo sozinho!
	S estou tentando proteg-la.
	Mas no  necessrio. Sei cuidar de mim.
	Estou vendo...  Mike passou a mo no cabelo e em seguida encarou-a.  Desculpe. No estou aqui para julg-la.
	Voc est certo. Errei sozinha e sozinha vou tentar corrigir meu erro. No o quero envolvido nisso mais do que j est. E tem mais: vou voltar para a casa de hspedes.
	Isso  loucura. No posso ficar de braos cruzados, vendo-a lutar sozinha contra aquele canalha. Doug Hammond  advogado, e dos mais espertos. Voc no ter a menor chance de venc-lo num tribunal.
	Isso ns veremos. Devo-lhe muitos favores, Mike, e mesmo que viva cem anos jamais conseguirei
retribuir o que fez por mim. Casou-se comigo, devolveu-me o emprego e est disposto a dar um nome a meu filho.  Kelly deu um longo suspiro, ganhando flego para prosseguir:  No entanto, ser meu marido no lhe d o direito de mudar as regras do jogo. As decises sobre minha vida e a do beb ainda so minhas.
Ao ouvir aquela explicao, Mike engoliu em seco, tentando afastar a angstia que vinha do fundo da alma. Seus olhos estavam fixos na aliana de casado, smbolo de sua unio com Kelly. Depois a observou. Naquele instante, ela parecia to frgil e bela... Uma boneca de porcelana, com enormes olhos verdes atormentados. Mas continuava cheia de determinao.
Era de fato a mulher mais forte e decidida que conhecera. Sabia que ela se sairia bem. Porm no queria v-la partir, e seria exatamente o que aconteceria se no cedesse. Sequer podia imaginar a vida sem ela.
	Est bem, vo'c venceu. Vou lhe dar o carto do advogado.
	Obrigada. Poderia entreg-lo agora? Eu gostaria de resolver isso quanto antes.
	Claro. Est em cima na escrivaninha. Mas antes de apanh-lo eu gostaria de fazer um trato: voc se entende com o advogado e prometo no interferir, mas tambm no quero mais ouvi-la falar em mudar-se. Combinado?  Quando Kelly assentiu, ele estendeu a mo.  Ento, toque aqui.
	Tocado!  exclamou ela, batendo a palma da mo contra a dele.
A Mike no passou despercebido um leve rubor, e ele concluiu que a situao a fizera lembrar-se do outro acordo, firmado naquele mesmo sof. Naquela ocasio ele a beijara, e naquele momento gostaria de fazer o mesmo. Mas temia que dessa vez fosse mais do que um leve toque de lbios. Ento, ela o acusaria de insistir em mudar as regras do jogo e sairia dali mais depressa do que um raio.
Mike subiu ao quarto, frustrado. Queria cuidar de Doug Hammond pessoalmente, e poucas coisas na vida lhe trariam mais satisfao. Mas, pelo bem de Kelly, precisava recuar. Ela temia que as conseqncias de uma possvel ao legal afetasse o emprego e a reputao do amigo. Tolice. Que se danasse o mundo. Permaneceria ao lado dela, para o que desse e viesse.
Oh, como gostaria de conseguir convenc-la de que gostava de t-la em sua vida, que tambm queria estar presente na dela! Isso era mais importante do que qualquer problema que Doug pudesse causar. Proteg-la era sua prioridade, mas isso o colocava num beco sem sada. Seu maior receio era que uma pesada batalha judicial pela custdia a destrusse, enquanto ele seria obrigado a ficar sentado, observando. No entanto, se tentasse interferir, tinha certeza de que Kelly desapareceria de sua vida.
No entanto, ao pegar o carto, decidido a entreg-lo, uma idia luminosa atravessou-lhe a mente. Talvez houvesse uma forma de proteg-la.
Ligou para o amigo. A recepcionista atendeu:
	Sargent, McCarthy e Harrison.
	Tina?  Mike Cameron.
	Ol, sr. Cameron. H quanto tempo! Como est?
	Bem, obrigado. Tim est?
Seu tom devia t-la alertado de que o assunto sera srio, porque a recepcionista imediatamente mudou de atitude.
	Sim... Um momento, vou coloc-lo na linha. Logo em seguida, Mike ouviu a voz do amigo:
	Oi, companheiro. O que houve?
Naquele instante, Kelly perguntou, do p da escada:
	Por que est demorando tanto?
	Aguarde um pouco, Tim. Ele colocou a mo no bocal e gritou:  No consigo encontrar o carto! Sei que est aqui, em algum lugar. Deso j!  Voltou a falar ao telefone:  No tenho tempo para explicaes. Apenas escute.
	Diga, garoto.
	Lembra-se quando lhe contei sobre a mulher que enfrentaria uma batalha judicial pela custdia do beb que est esperando?
	Sim, eu me lembro.
	O pai j entrou com o processo e ela vai telefonar para voc. Tente tranqiliz-la. Est passando por uma fase crtica e no deve se aborrecer. Ligo mais tarde para saber o que conversaram. Entendeu?
	Claro. Deixe comigo.
	Obrigado, Tim. Fico lhe devendo essa.  Ele desligou e escreveu o nmero do telefone do advogado num pedao de papel.
Temia ter ido longe demais, ligando para o advogado, e no queria nem pensar no que aconteceria se Kelly soubesse disso. Mas os fins no justificam os meios? Com um pouco de sorte, ela jamais descobriria.
Kelly deliciava-se com o toque morno e seguro da mo de Mike enquanto ele a conduzia  mesa da lanchonete. Tinham terminado o curso preparatrio para futuros pais e ele sugerira que fossem celebrar tomando sorvete. Em duas semanas, Kelly descobriria se realmente a tcnica do sopro funcionava.
Desejava que o parto fosse natural, sem drogas que pudessem causar danos ao beb, mas, aps ter visto o filme daquela noite, j no tinha mais tanta certeza. Pararam diante da mesa e Kelly se ps a calcular o espao entre o tampo e o assento.
	Acho que no vou caber a.
Mike puxou outra cadeira e colocou-a bem longe da mesa, para que ela se sentasse.
	Pronto. Garanto que agora voc caber.
	Oh, Mike, no sei o que seria de mim sem voc!  exclamou ela, rindo e brincando.
Aps os pedidos, ele alcanou-lhe a mo e comeou a acarici-la. O toque lhe causava arrepios. No era lindo? Estava gorda feito uma baleia, mal cabia numa cadeira e ainda assim sentia-se atrada por ele. Quando seus olhos se encontraram, poderia jurar que ele sentia a mesma coisa.
	Por que est me olhando desse jeito?  indagou Mike.
	Que jeito?
Kelly moveu-se, inquieta. Ser que ele conseguia adivinhar seus pensamentos? Saberia quanto se sentia atrada?
	Desse jeito engraado. O que h? Est apavorada?
	Um pouco...
Mas no apenas pelos motivos que ele certamente imaginava. Na verdade, Kelly tinha pavor de demonstrar aquilo que comeava a perceber. A atrao que sentia por Mike nada tinha a ver com os ombros largos e o porte atltico. Menos ainda com a questo hormonal. E entre precisar sufocar aquela atrao e perder sua amizade escolheria a primeira alternativa. Estava grata por t-lo como o amigo com quem sempre poderia contar.
	Tudo vai dar certo. Esse parto vai ser tranqilo.
	Espero que sim. Queria que minha me estivesse aqui.
Ele esboou um sorriso, e com ternura segurou-lhe a mo.
	Voc no estar sozinha. Vou ficar a seu lado.
	Obrigada.
Kelly gostaria de encontrar palavras para agradecer. Naquele momento, tentou adivinhar em que p estava a batalha pela custdia. Ainda no tivera notcias do advogado.
	Tom Sargent ainda no falou comigo. Acha que  um bom sinal?
Mike bebia gua e pousou o copo antes de responder:
	No ter notcias  ter boas notcias... No  o que dizem?
A garonete chegou com os dois sorvetes.
	Seja como for, achei-o um pouco vago. Disse que ligaria quando tivesse um plano formulado.
	Se eu fosse voc, esqueceria o assunto at que a necessidade surja. Se  que vai surgir.  Mike pegou a colher e comeou a saborear o doce.
	Faz trs semanas que falei com ele. Tem mesmo certeza de que  competente? Parece ter dificuldade em decidir o que fazer. No entendo muito do assunto, mas se esse advogado tivesse planejado a invaso da Europa na Segunda Guerra Mundial, atualmente todos estaramos falando alemo.
	No exagere. Ele est se preparando para combater Doug, pesquisando casos semelhantes...
	No acredito que tenha muito o que pesquisar. Devem ser raros os casos em que um pai processa a me de seu filho ainda por nascer.
	Tem razo, mas conheo Tim desde os tempos de escola. E um dos advogados mais brilhantes que temos por aqui. No se preocupe, ele no deixar nosso pequeno Sam na mo  disse ele, apontando a colher para a barriga volumosa.
	Tomara.
Kelly se deu conta de que mal tocara no sorvete, e que Mike quase acabara o dele. Estava sem apetite.
	Voc parece cansada. Quer ir para casa?
	Sim.
Por volta das duas da madrugada, Kelly acordou com dor nas costas. Ao sentar-se na cama, sentiu o desconforto espalhar-se, como se tivesse um cinto de ao em torno do abdome. Felizmente, a dor foi embora depressa, deixando-a excitada e assustada ao mesmo tempo. Talvez sua hora tivesse chegado.
	Se for assim, no deve ser to mal  disse, procurando tranqilizar-se.
Acendeu a luz do abajur, marcou a hora e esperou. Cinco minutos depois, outra contrao. Na ltima consulta com a mdica, lembrara-se de perguntar quando reconheceria a hora de ir para o hospital.
	Quando os intervalos entre uma contrao e outra forem de cinco minutos.
"Devo esperar por mais uma?", perguntou-se. "Uma ser suficiente? O que vou fazer? Bem, Mike deve saber."
Vestiu o roupo e desceu. Parou diante da porta do quarto e bateu.
	Mike?  chamou. Tornou a bater e no obteve resposta. Entrou.  Mike, acorde.  O ventilador de teto era barulhento e uma brisa fria a deixou
arrepiada. No sabia se de frio ou de medo.  Mike, por favor, acorde!
Viu-o mexer-se e rolar na cama depois do que pareceu uma eternidade, embora pouco tempo tivesse se passado desde que entrara ali. A luz do luar, filtrada pela janela, fazia brilhar o bronzeado do rosto bonito, no qual havia uma expresso inda-gadora. O cabelo estava em total desalinho e, dessa vez, Kelly no se importou em v-lo nu. Precisava dele e estava grata por t-lo a seu lado.
	Kelly? O que houve? Est na hora?
	No estou bem certa...
Mike acendeu a luz do abajur e, passando a mo pelo lenol, convidou:
	Deite-se aqui comigo. Vamos esperar juntos.
Ela deu a volta na cama e deitou-se.
	Desculpe-me acord-lo. Sei que ainda  cedo para o beb nascer, mas tive uma contrao forte
e minutos depois houve outra.
Mike passou os braos em torno dos ombros delicados e puxou-a contra si. Kelly sentiu-se aconchegada no corpo forte.
	Marcou a hora? Quanto tempo faz que houve a ltima contrao?
Ela olhou para o relgio de cabeceira.
	Cinco minutos.
	Creio que  melhor ir ao hospital  disse ele num tom srio.
	E se for alarme falso? Ainda faltam duas semanas!
	E se no for alarme falso?  melhor ir de uma vez para o hospital.
Mike afastou o lenol do corpo e fez meno de levantar-se. Kelly o segurou.
	Espere um minuto  pediu quando mais uma vez a dor a assaltou. Comeou nas costas e espalhou-se pelo abdome.
Respire, querida. Como a mdica ensinou, lembra-se? Mike mostrou-lhe como fazer e Kelly seguiu seus movimentos at a dor acalmar.
	Esta foi mais demorada e um pouco mais forte.
	Vamos para o hospital. Se for alarme falso, voltamos para casa e continuamos nossa noite de sono. Caso contrrio, passaremos a noite acordados.
 Tem toda razo. Vamos.
	Onde est a mala?
	No meu quarto, ao lado da porta.
Mike rapidamente vestiu jeans e camiseta.
	Vou peg-la. Relaxe e no tenha medo.
Quando ele desapareceu no corredor, Kelly foi assaltada por outra contrao. Estava na hora de o show comear.
Kelly?
Mike a fitava, deitada na cama do hospital. O lenol que lhe cobria o ventre estava liso. A "montanha" praticamente desaparecera.
Ela abriu os olhos e sorriu.
	Ol, treinador.
	Ol, mame. Como se sente?  quis saber ele, sentando-se na cama.
	Como me sinto? No tenho palavras para descrever o que sinto. Maravilhada. Aliviada. Pasma. Extasiada.
	No pode calcular minha surpresa quando ouvi a mdica dizer que era menina.
	Est desapontado?
Desapontado? Como algum poderia ficar desapontado aps presenciar o milagre da vida? Um beb perfeito, com dez dedos nas mos e nos ps, e pulmes que lhe permitiam chorar alto o bastante para estilhaar as vidraas era a melhor coisa que podia acontecer! E o fato de a me estar passando bem o deixava radiante. Na verdade, sentia-se o homem mais feliz do mundo.
	No. Apenas fiquei surpreso. Afinal, eu queria mesmo uma menininha.
Sentiu o corao acelerar ao observar Kelly. J a vira toda produzida para o baile de formatura; no ltimo reveillon, usando vestido preto e sapatos de salto alto, to sensual que atraa os olhares de todos os homens, inclusive o seu...
E agora, com o rosto lavado, usando a rstica camisola do hospital, ainda era a mulher mais bonita que eleja vira. Kelly era especial. Tinha mais encantos do que todas as outras mulheres que conhecia.
Lembrou-se do incio das contraes, de apertar-lhe as mos com fora, do percurso at a sala de parto. Quatro horas e meia aps a chegada ao hospital, ela j estava com a garotinha nos braos.
Kelly passou a mo na barriga e suspirou, satisfeita.
	Ela  perfeita, no ?
Mike pegou-lhe a mo.
	E a garotinha mais linda que j vi. E sei reconhecer uma garota bonita quando vejo uma.
Kelly sorriu ternamente, e em seguida ficou pensativa.
	Estive pensando em alguns nomes para ela.
	Voc j havia se acostumado a cham-la de Sam.
	Ainda gosto do nome Sam. Que tal lhe soa Samantha Michele?  Fitou-o os olhos repletos de dvidas, como se achasse que ele no aprovaria.
	Estarei tirando concluses apressadas ou voc escolheu "Michele" em minha homenagem?
	Ficaria feliz?
	Claro. Seria uma grande honra.
	Ainda bem que pensa assim. Voc foi maravilhoso. Acho que eu no teria conseguido vencer os obstculos sem sua fora. Quando Sammi for mais velha e entender, contarei a ela quanto tio Mike colaborou para o seu nascimento.
Novamente aquela histria de "tio" Mike... Kelly o fazia lembrar-se, ao falar assim, que o fim daquele casamento estava prximo. O aviso o entristecia.
Mas era melhor no esquecer que aquele acordo era provisrio. Ele j fora casado, e no se sentira feliz talvez por duvidar que o verdadeiro amor existisse. O pensamento fez seu humor mudar totalmente. Triste ironia. Sentiria muita saudade das duas. De Kelly e de Samantha.

CAPITULO VII

Desde que ficara grvida, Kelly passara a ansiar tanto pelo beb que chegava a sonhar com ele. No entanto, nos sonhos, era na prpria casa que sempre a via, no na imensa cama do quarto de Mike. E o beb sempre dormia feito um anjo, no era agitado nem tinha aquela carinha sapeca.
Mudando para uma posio mais confortvel, ela ergueu Sammi. Apesar de tudo por que passara, segurar aquele corpinho adorvel era uma verdadeira beno. Isso para no mencionar quanto podia ser assustador. Agora, era responsvel por aquele pequeno ser. Sammi no saberia dizer o que sentia quando chorasse. Kelly teria que adivinhar, e isso a aterrorizava.
Assim, toda vez que o pnico a ameaava, ela tentava se lembrar de que tinham estado no hospital at aquela manh e que sequer haviam passado um dia inteiro em casa. Demoraria um .pouco at ajustar-se  nova situao.
Mas toda aquela tenso a deixava cansada. Daria tudo para dormir um pouco. E, quando Sammi comeou a chorar, no conseguiu evitar as lgrimas.
Ouviu a gua do chuveiro parar de cair e soube que Mike logo voltaria ao quarto.
	Ainda bem!  murmurou.
Jamais o inclura em suas fantasias maternais e no sabia o motivo, uma vez que ele sempre estivera presente nos grandes acontecimentos de sua vida. Os laos que os uniam eram muito fortes.
Instantes depois, ele entrou no quarto, secando o cabelo escuro com uma toalha. Kelly prendeu o flego, hipnotizada pela viso. As gotas em seu peito e braos brilhavam ao refletir a luz e os msculos moviam-se poderosamente  cada movimento. Como se no bastasse, ele usava um short que deixava suas coxas firmes  mostra. Era esguio e estava em excelente forma fsica.
	Tudo bem?  perguntou ele.  Ouvi um choro. Algo de errado com a bonequinha? Julguei que fosse encontr-la dormindo.
	Eu tambm...  disse ela, dando um profundo suspiro.  Sammi parecia ter adormecido, mas de repente comeou a chorar. No sei o que h de errado...  falou, desanimada.
Com a agitada Sammi nos braos, Kelly olhou em direo ao bero de vime, enfeitado com fitas cor-de-rosa e posicionado entre a penteadeira e a cama de Mike. Fora idia dele coloc-lo no quarto. Assim, a nova mame no precisaria subir at o pavimento superior para cuidar da garotinha.
Mike sentou-se a seu lado na cama, e os ombros largos roaram os de Kelly. Ela sentiu o corao bater de modo acelerado. Procurou ignorar a sensao de desconforto quando o calor do desejo a percorreu.
Mike passou os braos ao seu redor, chegando perigosamente perto, e acariciou o rosto de Sammi.
Sua mo era quase do tamanho do corpinho do beb. Sua fora era bvia e inegvel. No entanto, era tocante a gentileza com que tocava a pele delicada da menina.
	Acha mesmo que h algo errado com ela? 
perguntou, preocupado.  Est seca e alimentada?
Kelly assentiu.
	O pediatra a examinou antes de sair do hospital. Avisou que ficaria manhosa de vez em quando, mas que no era preciso que eu me preocupasse.
Devia apenas tentar ser paciente.
Kelly no pde evitar a profunda tristeza que a inundou. Se eles fossem uma famlia de verdade, a chegada de Sammi seria perfeita. Olhou para Mike, melanclica. Era tudo uma farsa, lembrou a si mesma. Suspirou profundamente e transferiu o beb de um brao para outro.
	J tentou a chupeta? Dizem que faz milagres com os bebs  sugeriu Mike.
A chupeta! Se no estivesse com Sammi nos braos, ela teria se atirado ao pescoo de Mike.
	Esqueci completamente!  exclamou, sorrindo e maravilhada.
Mike a encarou com surpresa, levantando-se.
	A chupeta est no bero? Deixe que eu a pego. 
Deu-a ao beb, que passou a sug-la avidamente, fazendo sons engraados.
	Que o mundo abenoe quem inventou a chupeta!  disse Kelly, agradecida. Em seguida fitou Mike.  Que bela me sou eu, no?
	Por que est dizendo isso?  indagou ele, sentando-se outra vez.
	Sequer sei o que fazer quando minha filha chora!
	No seja to dura consigo mesma. Afinal, voc nunca foi me. Creio que o segredo  relaxar e, quando o beb chorar, tratar de verificar se est seco e alimentado. A no ser que esteja com febre...
	Ser? Talvez no esteja suficientemente aquecida. Com esse calor, julguei que o macaco fosse suficiente. O mdico disse para no colocar muita roupa, que eu me baseasse por mim mesma, e estou de short.
Os olhos de Mike pousaram nas pernas bem-tor-neadas e por um instante um brilho de interesse surgiu nas pupilas escuras.
	Deixe-me ver se nossa garotinha est com frio...  disse ele, inclinando-se para tocar a testa de Sam-mi com os lbios.
	Isso no  muito cientfico.
	Mas funciona. Provavelmente est cansada e com gases.
	E se no for to simples? Se continuar chorando e for preciso lev-la ao pediatra? E se esperarmos muito tempo e algo realmente srio acontecer? E se...  Nesse momento, ela percebeu que o beb cuspia a chupeta e comeava a gritar.  Talvez seja melhor ligar para o pediatra.
	Deixe-me carreg-la. Quero nin-la um pouquinho.
	Pelo amor de Deus, voc  treinador de futebol! O que entende de bebs?
	Sammi no  muito diferente de uma bola de futebol. O que mais preciso saber?
Kelly ficou de queixo cado quando Mike pegou a menina no colo. Calmo e relaxado, parecia ter convivido sempre com bebs.
	Ainda bem que percebeu que ela no  uma bola de couro...
	Estou brincando. Sei que  uma pessoa. Uma linda pessoa pequenina.  Mike pegou a fralda e colocou no ombro. Depois, ergueu Sammi.  Meus atletas gastam muita energia num treino, e no final esto sempre cansados, prontos para uma boa noite de sono. Tudo o que ela faz  dormir o dia inteiro, e chorar  seu exerccio.  como fazer aerbica.
	O que mais me assusta  que isso tudo faz sentido  disse Kelly, fitando-o, intrigada.
Mike sorriu e seu corao encheu-se de calor.
	Voc precisa relaxar. V at o banheiro, encha a banheira e fique de molho uns trinta minutos.
	Mas...
	Nada de "mas". E uma ordem. Eu e Sammi no vamos precisar de voc por enquanto.
Kelly pensou em protestar, mas a sugesto era irresistvel.
	Est bem, eu vou. Vejo vocs em meia hora.
Ela saiu do banho totalmente relaxada. Vestiu o pijama curto e o robe de seda. Antes de sair do banheiro, colou o ouvido  porta, surpresa com o silncio.
	Mike...  chamou, baixinho, ao entrar no quarto.
O que viu naquele momento era doce demais para ser traduzida em palavras.
Mike estava na cama, cochilando, as costas apoiadas aos travesseiros. Segurava Sammi sobre o peito, uma das mos pousadas no corpinho delicado e a outra nas perninhas. Ela tambm dormia. Como um anjo.
Cuidadosamente, Kelly afastou os braos de Mike e pegou Sammi. Deitou-a no bero e cobriu-a com o lenolzinho cor-de-rosa. Temendo acord-la, decidiu no lev-la para cima. Ainda no se sentia forte o suficiente para subir a escada com a filha no colo.
Mas isso a deixava num beco sem sada. No queria ficar longe de Sammi, para o caso de ela chorar, e tampouco teria coragem de acordar Mike e pedir-lhe que deixasse a prpria cama. Sua nica alternativa era deitar-se ali mesmo.
A cama era grande. Havia espao suficiente para duas pessoas passarem a noite sem sequer se tocar. Pelo menos, ela esperava que no se tocassem. Caso contrrio, estaria perdida.
Apagou a luz, tirou o robe e deslizou para baixo do lenol. Podia sentir o calor do corpo de Mike a seu lado, a respirao regular e tranqila. Controlou-se ao mximo para no se aninhar naqueles braos fortes.
A atrao que sentia por aquele homem a assustava. E agora no podia mais usar a gravidez como desculpa. A situao, na verdade, colocava a amizade dos dois em perigo. Ela no conseguia nem pensar em perder o apoio de Mike. Desejava poder pegar o beb e desaparecer. Seria a nica maneira de salvar o que tinham juntos.
Mas no podia fazer isso.
Sammi vinha em primeiro lugar. Casara com Mike para enfrentar Doug nos tribunais e estava presa a ele, ao menos at que o processo pela custdia fosse encerrado.
Mike suspirou e virou-se para seu lado. A fra-grncia suave da colnia aps barba, e o calor que emanava do corpo msculo, tornavam-se cada vez mais irresistveis.
Kelly escorregou para a ponta da cama, tentando manter-se longe. Mas como ficar distante se ele dormia a apenas alguns centmetros?
Seus hormnios precisavam de uma dura lio. Era professora, capaz de manter uma classe inteira de insubordinados sob controle. Por que no fazer o mesmo com os prprios hormnios?
Mike recusava-se a abrir os olhos. Se o corpo quente e macio de mulher roando em sua perna fosse parte de um sonho ertico, no desejava acordar. Se, por outro lado, fosse apenas um engano e ele no estivesse dormindo, queria saborear o momento.
O suspiro de Kelly convenceu-o de que no sonhava. Sentiu-lhe o calor, ouviu o som de sua respirao. No precisava abrir os olhos para saber de quem era aquele corpo. Reconheceria o perfume dela mesmo em meio a uma multido.
Mas no era s isso. Kelly tinha uma das pernas pousada sobre as dele, e um brao sobre seu ventre. Mike podia sentir a maciez dos seios pressionados contra seus msculos.
No questionaria por que milagre ela resolvera deitar em sua cama. Apenas gostava da sensao de no estar sozinho.
A luz do luar entrava pela janela aberta e iluminava o contorno do rosto de linhas perfeitas. O cabelo espalhava-se como seda no travesseiro, e a boca car-nuda, relaxada pelo sono, atraa-lhe o olhar como um m. O sabor daqueles lbios veio-lhe  memria, tentando-o at que no conseguiu mais resistir. Precisava beij-la. Caso contrrio, morreria.
	Kelly?  sussurrou.
	Sim?  ela respondeu, sonolenta.
	Vou beijar voc. Se fizer alguma objeo, diga logo.
No fao  sussurrou ela, ainda de olhos fechados.
Ele aproximou-se um pouco e roou-lhe suavemente os lbios, num toque leve e preguioso. Depois abraou-a com mais fora, deliciado com a sensao dos seios fartos contra seu peito.
Kelly sonhava, e gostava da idia de toc-lo. Moveu-se de modo a ficarem frente a frente. Sentiu os dedos firmes correrem languidamente, sobre a ca-misola, at o quadril, e adorou a sensao.
Nos braos de Mike sentia-se renascer. No ntimo, tinha a impresso de que sempre fora dele e que, por algum motivo, haviam se separado. Pressentia uma fora que os unia, uma fora que a manteria presa a ele em todas as circunstncias.
Mike a fitou com doura. Com o polegar, tocou-lhe as faces, o nariz e o queixo, para depois contornar-lhe o pescoo esguio. Aproximou-se do rosto at tocar-lhe os lbios midos e entreabertos.
Kelly sentiu o corpo inteiro responder  carcia. Abraou-se a ele, as mos acariciando as costas mus-culosas, e beijou-o com avidez.
Kelly o deixava maluco, mas era preciso manter o controle. Ela acabara de dar  luz. Sabia que devia esperar at que ela se sentisse pronta. Fazer amor quela altura dos acontecimentos estava fora de cogitao. Mike poderia contentar-se com abra-la, senti-la bem perto.
	Kelly...  sussurrou.  Voc  to suave... 
Sentiu-a estremecer, como se o som de sua voz tivesse quebrado o encanto que os envolvia. Percebeu, mesmo na escurido, que ela estava assustada.
	Mike? O que est fazendo?
	Estou beijando voc. Eu disse que a beijaria, no disse?
	No ouvi  disse ela, sentando-se na cama.
	Ento voc falou comigo dormindo? Julguei que estivesse acordada.
	Eu falei com voc?  Kelly parecia surpresa por no se lembrar.
	Mais ou menos...
Por nada no mundo Mike queria que ela pensasse que tentara tirar vantagem da situao, embora, na realidade, tivesse feito exatamente isso. Mas nada teria acontecido se, ao acordar, ele no a tivesse encontrado em sua cama.
	Acordei com voc deitada aqui e no pude resistir  tentao de beij-la.
	Desculpe a invaso. Deixei Sammi aqui com medo de acord-la se a transferisse para o meu quarto. Achei que no fosse ouvi-la l de cima. Por isso resolvi deitar-me com voc. Esta cama  to grande...
Kelly afastou o lenol do corpo e levantou-se. Vestiu o robe e aproximou-se do bero para tocar levemente a filha antes de sair do quarto.
Mike saiu da cama e fitou a menininha. Viu que ainda dormia, embora se mexesse. Vestiu a camiseta e foi atrs de Kelly. Encontrou-a na cozinha, junto ao balco e de costas para a porta.
	Est zangada comigo?
Como se no soubesse a resposta... Provavelmente, ela o julgava o maior crpula da face da Terra. E com razo.
	Lamento, Mike.
	Por qu?  perguntou ele, surpreso.
	Por perturb-lo. Deitei-me em sua cama porque no tive coragem de deixar o beb com voc. Julguei que no fosse notar minha presena.
Seria impossvel no not-la. Mesmo que ela no tivesse aninhada a seu corpo, iria senti-la. E o beijo que trocaram despertara uma emoo diferente em ambos. No se atreveria a chamar de amor; amor era um conto de fadas tolo e infantil, que algum inventou sobre pessoas reais. No entanto, a emoo era forte, devastadora.
	Nunca mais faa isso  pediu ela, voltando-se.
	Por qu? No venha me dizer que no gostou!
	Ao contrrio. Gostei demais, mas jurei riscar os homens de minha vida, lembra-se?
	Sim, mas voc tambm disse que no seria para sempre.
	E verdade, mas ainda  muito cedo. Acabei de dar  luz...
	Espere um pouco, droga! Que tipo de crpula julga que sou? Acha que eu seria capaz de for-la a...
	Claro que no. Refiro-me ao lado emocional, no fsico.
	Acho bom! Mas ainda no entendi... Qual  o problema?
	Estou fraca, com as defesas em baixa. Seria fcil ceder e cometer um engano. Prefiro no arriscar. Somente quando a custdia de Sammi estiver garantida e minha vida voltar ao normal poderei pensar em relacionar-me com um homem. A ento vou querer viver um grande romance.
	Isso  tolice.
	E da? No seria minha primeira tolice.
	No negue que se sente atrada por mim. Apenas lhe dei um beijo, e sei que no  to boa atriz. Se no tivesse gostado tanto quanto eu gostei... bem, com certeza saberia como escapulir desse tipo de situao.
	No vou negar que senti... algo. Mas no quero me precipitar, em especial tratando-se do meu melhor amigo. O que eu faria se no desse certo e voc desaparecesse da minha vida?  Kelly tentou manter um tom baixo de voz, sem conseguir.
	Voc jamais me perder.
	No sei... s sei que no quero arriscar, complicando as coisas entre ns. Gostaria que me prometesse que isso no tornar a acontecer.
Mike no sabia se queria fazer o que ela pedia. O beijo que haviam trocado despertara nele sentimentos jamais provados. Por que no explor-los e ver o que acontecia?
Seus olhos fixaram-se na boca ainda molhada de Kelly. Naquele instante, teve certeza de que no poderia prometer ficar sem beij-la.
	Defina a palavra "isso", por favor  pediu.
	Voc sabe...  disse ela, abrindo os braos.  O que aconteceu agora h pouco em sua cama.
	Certo. Tem minha palavra. Kelly suspirou, aliviada, e sorriu.
	Obrigada.
	De nada.
Ouviram um chorinho vindo do quarto.
	Acho que Sammi acordou. Vou troc-la antes de amamentar.
Mike a observou afastar-se da cozinha. No poderia culp-la por ser to cautelosa. No depois do que Doug Hammond a fizera passar. No entanto, ela mesma admitira desejar viver um grande amor e, embora ele no acreditasse nesse sentimento, no jogaria fora sua chance de conquist-la.
O nascimento de Sammi o forara a convencer-se de duas coisas: que queria estar perto dela, para proteg-la e v-la crescer, e de que precisava de Kelly.
Procuraria agir como se nada tivesse acontecido. Alis, se tivesse algum juzo, faria exatamente isso; correria feito louco em outra direo.
Mas era um treinador competitivo e, como tal, gostava de vencer. J cometera muitos erros em seus relacionamentos anteriores e no gostava de falhar. Mas, se no tornasse a jogar, jamais conseguiria vencer.
Pior do que perder Kelly seria condenar-se o resto da vida por no ter tentado mudar a situao. Teria de aproveitar cada segundo. Se Kelly queria romance, era exatamente isso que teria.

CAPITULO VIII

	O que anda tramando, Mike Cameron?  indagou Kelly.
	Nada. O que a faz pensar que eu esteja tramando algo?  Mike tentou disfarar, escondendo a caixa atrs das costas.
	Esse seu ar inocente  disse ela.  Alm disso, voc no  de esconder coisas. No  bom nisso. Portanto, no pense em deixar o time de futebol e trabalhar para algum servio secreto. No dar certo.
	Longe de mim!
	Ento o que  que est escondendo a atrs?  quis saber ela, inclinando-se para ver o que ele escondia.
Podia ser comida chinesa, comprada no restaurante no fim da rua. Mas por que ele esconderia rolinhos primavera?
Mike foi para a cozinha e Kelly o seguiu, espichando-se ao mximo para ver se conseguia enxergar por sobre o ombro largo. Por que ele tinha de ser to alto? Era como tentar ver algo atrs de uma montanha!
Mike colocou o embrulho na geladeira. Depois parou diante de Kelly, os braos cruzados diante do corpo, lembrando um vigia.
	O que h?  quis saber ela.  O que est pretendendo fazer?
	Nada.
	Est bem. Vamos esquecer o pacote misterioso. Por que Susan me ligou avisando que ela e o marido estariam aqui s seis horas?
	Para tomar conta de Sammi.
	Por que, se vou estar aqui?
	No, voc no vai estar.
	Como no?
	Vamos sair.
	Sair como? No posso deixar Sammi. Ela s tem trs semanas!
	Quase quatro. J verifiquei com o pediatra e ele disse que nada acontecer se a deixarmos durante algumas horas aos cuidados de algum de confiana. Confia em Susan, certo?
	Sim, mas h anos ela no lida com bebs.
	Pois afirmou que cuidar de bebs  como andar de bicicleta. Jamais se esquece  constatou ele, rindo.
	Voc  um terrvel cara-de pau. Onde j se viu impor uma tarefa dessas a Susan?
	Por qu no? Ela disse que adoraria.  Mike lanou-lhe um olhar de desafio.  Com essa j so trs as desculpas que voc arranjou para recusar meu convite. Ainda lhe restam sete.
Mike encontrara dez bons motivos para se casar, e vencera. Kelly podia apostar que dessa vez tambm teria dez bons motivos para induzi-la a aceitar seu convite. Sorriu. Seria timo sair com ele e, sem dvida, bem mais estimulante do que tentar conversar com um beb que no sabia responder, por mais inteligente que Sammi prometesse ser. Kelly decidiu aceitar.
	Irei munido de telefone celular e, se algo acontecer, em dez minutos estaremos em casa.
	Ento no sairemos do vale?
	No. Mas no vou dizer aonde pretendo lev-la.  surpresa.
	Sei...  Kelly ficou pensativa.  O pior perodo, para Sammi, vai das seis s onze da noite. E se Susan no souber o que fazer?
	Essas so as desculpas seis e sete. Cuidado, elas j esto se esgotando. Quanto a Susan, deixe uma lista com todas as tticas que usa para acalmar Sammi e tenho certeza de que ela se sair bem.
	Susan vive se queixando de crianas pequenas. Diz que no tem mais pacincia para lidar com elas.
	Mas no fala srio. Alm disso, no passaremos a noite toda fora. E se ela perder a pacincia com Sammi, o que duvido que acontea,  s nos ligar avisando. Viremos correndo.
	E se o telefon no funcionar?
	Posso test-lo antes de sair de casa e, se for necessrio, ligaremos a cada quinze minutos, at Susan se irritar.  Mike fitou-a intensamente.  Ainda restam trs desculpas. Se no forem boas o suficiente, vai ter de sair comigo esta noite, nem que eu tenha que arrast-la.
	Estou gordinha e fora de forma. No tenho uma roupa decente para vestir.
Mike no desviava os olhos de Kelly um s instante, sentindo um verdadeiro terremoto sacudir-lhe as emoes. J no sabia mais o que pensar, o que sentir... A nica certeza que tinha era que no conseguiria resistir aos encantos da esposa por muito tempo. Ela parecia um anjo com aqueles cabelos sedosos... Desejava tanto toc-la que seus dedos chegavam a latejar de ansiedade.
	Que nada. Voc est em tima forma. Tirar e colocar Sammi do bero  um timo exerccio. Tenho certeza de que encontrar algo adequado para vestir.
	Mas eu preciso saber aonde...
	 surpresa. Portanto, no faa mais perguntas. Ainda est sobrando uma desculpa. Capriche.
	Isso est me parecendo um encontro amoroso.
	Um encontro amoroso? De onde foi que tirou essa idia?
	Pois  o que est parecendo.
	Mas no . Primeiro, pessoas casadas no precisam ter encontros amorosos. Segundo, somos amigos... um homem e uma mulher saindo juntos porque um deles precisa de distrao.
	Eu?  indagou ela, levando a mo ao peito.
	Voc, sim. Mas estou achando que prefere no sair comigo. Do que tem medo?  indagou, pegando-a pelos ombros e fazendo-a voltar-se para encar-lo.
"De tudo", concluiu ela.
Sentiu-lhe os dedos fortes tocando-lhe a garganta e arrepiou-se. Estavam to prximos que ela podia sentir o calor do corpo msculo aquec-la da cabea aos ps.
Dezenas de vezes desejara sugerir que Mike esquecesse a promessa de no se aproximar. Desejava ser beijada novamente, mas sempre que se sentia tentada a isso lembrava quanto poderia ser perigoso.
	Eu? Por que eu teria medo?  desafiou ela.
S que, ao contrrio da voz calma e segura de Mike, a dela soou bem pouco convincente.
	Vou tomar isso como um "sim". Ento aceita jantar comigo?
	Ento pretende levar-me para jantar fora?
Mike fez meno de sair da cozinha.
	Isso nunca foi segredo. O segredo  onde iremos e o que guardei na geladeira. No vale espiar, e
no pense que no vou saber se fizer isso.
Lanou-lhe um olhar cheio de mistrio antes de deix-la na cozinha.
Kelly no conseguia mais esconder seus sentimentos. E, embora sabendo que deveria ter recusado o convite para o jantar, no foi capaz de fazer isso.
Alm disso, a idia de ter algum tempo livre era tentadora. Tentou convencer-se de que sair com Mike seria a mesma coisa que ir ao cinema com Susan.
No entanto, pensar em ficar a ss com ele durante algumas horas lhe dava um frio na espinha...
Mas que tolice! Eram apenas um homem e uma mulher saindo para um agradvel jantar. No seria um encontro.
	V? Mesmo dentro do restaurante o telefone funciona constatou Mike, pousando o celular sobre a mesa.
A vela tremulando sobre o candelabro de cristal iluminava apenas os dois, dando a impresso de que eram os nicos no local. As outras pessoas no passavam de sombras obscuras.
Kelly estava linda em seu vestido branco e preto. Tinha os braos nus, e o decote profundo deixava  mostra o colo provocante. O sedoso cabelo castanho apenas tocava os ombros, e seus olhos verdes brilhavam, excitados.
As paredes altas e o teto de madeira aparente do Le Chne ajudavam a criar o clima romntico que Mike desejava. Queria marcar pontos com Kelly, pois sabia que aquele era o restaurante favorito dela. Precisaria apenas parar de preocupar-se com Sammi.
	Obrigada pelo jantar, e por no ter caoado de mim quando liguei para casa a fim de saber se estava tudo bem. E pela orqudea que guardou na geladeira.
	Foi um prazer.  A expresso pensativa de Kelly chamou-lhe a ateno.  Ainda preocupada?
	No. Susan parece estar se saindo bem. Est ensinando Sammi a sorrir. Acha que  muito inteligente.
	Tenho certeza que sim. Afinal,  sua filha. Mas deve concordar comigo quando digo que  muito cedo para que a pobrezinha aprenda alguma coisa.
	Mas se isso faz Susan feliz... Acredito que um pouco de estmulo no far mal ao beb.  De repente, seu sorriso se apagou.
	O que h?
	Falei com o advogado esta tarde  disse ela ao pousar as mos sobre a mesa.
	E ento?
Ela encolheu os ombros.
	Ele disse que est cuidando de tudo e que no devo me preocupar, mas eu gostaria de ouvir algo concreto, algo que me tranqilizasse.
Mike sentiu-se um pouco culpado. Estava a par dos planos de Tim, mas contar a ela no iria tranqiliz-la. E, enquanto Doug no desistisse da custdia, faria tudo para mant-la afastada dos problemas.
	Se Tim diz que est tudo sob controle, pode acreditar.  Ele pegou-lhe as mos.  A justia  lenta, mas no falha. E Tim  um dos melhores advogados em sua rea.
	Voc j disse isso, mas...
	No confia em mim?
	Claro que confio.
	Ento relaxe. Por nada no mundo voc perderia essa causa.
	Espero que esteja certo. Estou tentando no me preocupar, mas essa espera est me deixando louca. Quero relaxar e me divertir com minha filha sem ter de me preocupar com seu futuro.
	Pois pode fazer isso  garantiu Mike, aper-tando-lhe a mo.
Kelly ficou aliviada quando a garonete trouxe a salada e Mike foi forado a solt-la. Apesar de ele afirmar o contrrio, o clima era de um encontro amoroso.
No o vira to elegante desde o casamento. Estava muito atraente naquela camisa amarela combinando com a calca bege. Tinha o cabelo penteado para trs, exceto pela mecha que insistia em cair-lhe na testa.
De fato, fora arriscado aceitar aquele convite. E, embora ele negasse, Kelly sabia que Mike estava aprontando alguma.
Decidiu test-lo.
	Sabia que o Le Chne  o meu restaurante favorito?
Ele fitou-a por sobre a borda do copo, e as sobrancelhas arqueadas numa expresso de exagerada inocncia confirmaram-lhe as suspeitas. Ele sabia.
	E mesmo?
	Foi muita gentileza de sua parte trazer-me aqui. Se no o conhecesse to bem e se no tivesse tido um beb recentemente, eu juraria que a fase dois do plano desta noite seria tentar embebedar-me para depois seduzir-me.
Kelly fitou-o com os olhos estreitados,  espera da resposta.
Mike parou de comer e descansou o garfo, no rosto uma convincente expresso ofendida. Mesmo antes de ele responder, Kelly sentiu-se pouco  vontade.
	Sempre fui sincero com voc.
	Sei disso. Desculpe.
	Alm disso, eu no precisaria seduzi-la. Voc mesma deu permisso para que eu sasse com outras mulheres, se desejasse.
	Tem razo. Tinha esquecido.
Podia apostar seu ltimo centavo que Mike no estivera com outra mulher, mas apesar disso o cime cresceu dentro dela. Nunca se sentira assim, e isso a assustava.
	Eu jamais a embebedaria.
	Sei disso. E peo desculpas mais uma vez.
	Mas continua me acusando de agir com segundas intenes e isso me magoa.
	Lamento. Quantas vezes terei de dizer isso? O que mais posso fazer?
	No sei. D-me um tempo. Pensarei em algo. Mais tarde  respondeu ele.
Havia um brilho diferente em seu olhar, e Kelly no teve certeza se gostou do que viu. No entanto, sabia que Mike seria incapaz de mago-la. Mas no podia evitar a sensao de que ele escondia algo.
	Ento, o que achou?  quis saber Mike enquanto-ela observava, maravilhada, o vale que se estendia l embaixo.
	 realmente de tirar o flego!
Kelly sabia que talvez no devesse subir ao Sunset Point com Mike Cameron. No entanto, a magia da noite parecia tirar-lhe a capacidade de dizer no. Sammi estava bem com Susan e ela no via porque negar-se um pouco de distrao. Para ser sincera, no queria dizer no. Assim que Mike sugeriu a ida ao mirante, no viu a hora de sair do Le Chne.
E agora ali estava, olhando o vale de Santa Cla-rita, iluminado como uma rvore de Natal. A brisa agradvel agitava-lhe os cabelos e refrescava o rosto corado pela excitao.
O ombro de Mike esbarrou nela quando o brao musculoso indicou um ponto, l embaixo.
	L est a escola... Nossa casa fica naquela direo.
	Engraado como o mundo parece diferente visto daqui...  De fato, era mesmo espetacular. Ela suspirou, lembrando de como sua vida seria mais fcil se Mike no fosse to generoso e to bonito. Alm disso, possua um corao aberto, o que para Kelly era uma combinao fatal.  Como descobriu esse lugar?  indagou, quase sem voz.
	Por intermdio de meus alunos. Este  o point romntico do momento na cidade.  aqui que eles vm namorar.
	Ah! Bem que desconfiei que voc estava tramando algo...
	Puxa, eu no sabia que voc era to desconfiada. A nica coisa que tramei foi afast-la das fraldas e das mamadeiras para proporcionar-lhe um pouco de distrao. Sabe o que dizem sobre muito trabalho e pouco divertimento?
Mike a encarou e algo brilhou nos olhos escuros, fazendo fagulhas se acenderam dentro dela. Kelly desejou muito relaxar, esquecer as preocupaes. Ignorou o sinal de alerta soando em sua mente e resolveu deixar os problemas para mais tarde. Queria apenas curtir aquele momento. 
Mike aproximou-se e passou a mo pelos cabelos sedosos antes de segur-la pela nuca. Naquele momento, ela soube que iria ser beijada. E, mesmo que sua vida dependesse disso, no o impediria.
Fechou os olhos e sentiu um leve afago nos lbios, enquanto braos fortes a envolviam. Uma sensao agradvel, provocada pelo toque delicado da boca de Mike, a dominou. Suspirou, deliciada. Era como se estivesse perdida em mar aberto, e inesperadamente se visse levada para um porto seguro.
De repente, deu-se conta do calor emanando do corpo dele. A suavidade desaparecia. Em seu lugar surgia uma nsia desenfreada, que foi crescendo at alcanar um grau de possessividade que quase a deixou sem flego.
Impetuoso, Mike exigia-lhe reciprocidade ao apertar-lhe os lbios. Numa explorao minuciosa, apossava-se de cada ponto tocado. Apesar do assalto inesperado, Kelly no tentou se desvencilhar e, sem perceber, amoldou o corpo ao dele. Os lbios ardiam, sensveis, e uma carncia sem tamanho surgiu em seu ntimo.
Os joelhos de Kelly comearam a tremer. No fosse o amparo dos braos fortes, no conseguiria manter-se em p. Jamais sentira uma emoo to forte. A intensa virilidade a envolvia mais e mais, cati-vando-a irremediavelmente.
Mike ento beijou-lhe o rosto, o pescoo, descendo at a nuca, fazendo-a sentir quanto sua respirao estava ofegante. Ela afastou-se apenas o suficiente para encar-lo.
 Voc prometeu no me beijar assim novamente  sussurrou to gentil e sedutoramente que o tom de reprovao que pretendia imprimir  voz no apareceu.
	Prometi no beij-la na cama.
	No precisa ser to minucioso.
	Lamento, mas a culpa  sua.
	Minha?
Mike recostou-se ao carro e puxou-a contra si, acomodando-a entre as pernas e segurando-a pela cintura.
	Voc  culpada, sim. Quem mandou ser to linda?
	Sabe que nunca me disse isso?
	Claro que disse!
	Talvez quando eu estivesse produzida, vestida para alguma festa, mas nunca sem um bom motivo. Por que isso agora?
	No sei. Apenas tive vontade de dizer.
	Mas no estou diferente do que sempre estive. O que h, Mike?
	Deve ser a maternidade que a torna to desejvel.
	Acho que est .imaginando coisas. Essa discusso  intil e  melhor parar por aqui.
	Defina "parar por aqui".
	Parar com esses beijos  respondeu ela, afastando as mos msculas de sua cintura.
	Parecemos dois adolescentes. O que acha que os garotos diriam se nos vissem agora?
	No haver o que ser visto. Essa situao no pode continuar.
	Por qu?  perguntou ele, ajeitando-lhe as alas do vestido.
	Porque quando voc me toca u no consigo pensar direito.
	Voc pensa demais  acusou ele. Kelly ia protestar, mas Mike a silenciou pousando o dedo indicador em seus lbios. Aposto como pretendia dizer que no penso o suficiente, e talvez seja verdade. S sei que voc fala demais.
Antes que pudesse retrucar, ele a silenciou de novo, dessa vez com um beijo. As palavras foram esquecidas, como sempre acontecia quando aquele homem a tocava.
Kelly prendeu a respirao e o pensamento atingiu-a como um raio, assustando-a. Mike Cameron a desejava, exatamente como ela o desejava.
	Kelly?  indagou ele, quase sem flego.
	Sim?
	Lembra a promessa que fiz sobre beij-la assim?
	Eu me lembro.
	Voc me arrancou a promessa  disse ele mordiscando-lhe o lobo da orelha.  E no vai dar para continuar. Creio que precisarei voltar atrs na palavra dada.
	Voc no pode... pense na nossa amizade...
	Pare com isso!  Num movimento brusco, Mike a largou e deu um passo para trs. O calor aconchegante foi substitudo por um vazio gelado e, confusa, Kelly sentiu-se incompleta, como se lhe houvessem arrancado algo. Fitou os olhos escuros e percebeu o brilho inconfundvel da paixo.  Pare de se esconder atrs da palavra amizade!
	No diga bobagens!
	Acha que  bobagem? H algo acontecendo entre ns! S voc no v!
	Vejo sim! Posso at dizer o que . Simplesmente desejo!
	E mais do que isso. Sabe quanto a quero; mas tambm me preocupo com voc, e isso  diferente de "simplesmente" desejo.
	No diga uma coisa dessas.
	Por que no? Voc no pode negar que tambm me deseja, porque a senti vibrar nos meus braos. Sabe muito bem que existe algo entre ns e essa verdade a apavora.
Colocou as mos nos bolsos, frustrado. Desejara tanto que aquela noite fosse especial... Planejara causar uma boa impresso em Kelly, a fim de conquist-la. No entanto, fora em vo. Que tipo de criatura era ela para transtorn-lo a tal ponto? Ele, sempre to seguro de si e no controle de tudo, mostrava agora a mais completa incompetncia. E por causa de uma de mulher.
	Sei que  cedo  continuou ele.  E quando fizermos amor no ser no banco traseiro de um carro, como dois adolescentes. Vai ser na nossa cama...
	No podemos, Mike.  Kelly afastou-se e foi sentar-se no carro.  Temos um acordo. Quando o casamento acabar, precisaremos prosseguir nossos caminhos. Se nos rendermos a nossos hormnios, a vida ficar na maior desordem.
	Nem tudo  perfeito.
	Uma coisa .
	O qu?
	Nossa amizade.
CAPITULO IX

No dia seguinte, Mike pegou sua cmera e saiu filmando tudo o que via. Tentava convencer-se que era apenas para preencher o tempo, enquanto as aulas no comeavam, e para exercitar seu talento. Mas a realidade era outra.
Quando as aulas recomeassem, Sammi e Kelly iriam embora. Era como se ele estivesse vendo uma tempestade aproximar-se. Sabia que seria terrvel, mas somente teria idia de quanto no instante em que os ventos o atingissem.
Estivera conversando com o advogado sobre a custdia. Tim armara um plano que foraria Hammond a fazer um acordo com Kelly ou desistir. Mike apostava na ltima hiptese. Com sorte, ela sequer saberia que o processo havia sido agendado. Essa era a boa notcia.
A m notcia era que, quando isso acontecesse, Kelly iria embora com Sammi e em seguida entraria com o pedido de divrcio.
A palavra parecia feia e desagradvel quando a envolvia. Divrcio servia para gente como Carol, sua ex-mulher. Mike se lembrou de que, quando sua carreira como jogador profissional terminou e ele decidiu trabalhar com crianas, treinando o time da escola, Carol, que gostava de estar em evidncia, sugeriu que optasse por algum time famoso e mais visado pela imprensa. Dizia que ele tinha boa aparncia e que devia aproveitar-se disso.
Mas Mike sabia que, se no fosse pela famlia Walker, mesmo com toda a "boa aparncia" teria se tornado um perdedor. Aquela famlia abenoada, sem nada esperar em troca, acolhera um garoto-problema em casa e lhe ensinara a ser um homem de bem atravs do esporte. E, querendo devolver o bem recebido, ele decidiu ajudar as crianas. Quando confessou isso a Carol, el riu, julgando que estivesse brincando. Mas no estava.
Mike no gostava de perder, e entrara de cabea naquele relacionamento. Tinha a inteno de faz-lo durar para sempre. Mas, quando seus dias de glria se foram, Carol tambm se foi. Em todo caso, no sofrer. Para ser sincero, no sentira a menor falta dela.
Mas com Kelly seria diferente.
Com Kelly, ele ria mais, sentia mais, falava mais. Certa vez dissera-lhe, brincando, que era um solitrio. Mas somente aps sentir o gosto de viver numa verdadeira famlia descobrira que no estava brincado. A idia de uma vida sem Kelly e Sammi parecia vazia e sem sentido.
Ao perceb-la aprontando o banho da garotinha, pegou a cmera e subiu os degraus de dois em dois at o quarto. Kelly enchera a banhirinha com gua quente e estava prestes a colocar Sammi nela quando ele comeou a filmar.
Seus olhos cruzaram-se no espelho.
 Olhe quem est aqui, Sammi.  o tio Mike.
Mike cerrou os dentes com fora. Ficava furioso quando ela o chamava assim. Aps o malfadado jantar no Le Chne, Kelly passara a fazer isso com maior freqncia. A noite fora um verdadeiro desastre. Se ela procurava por romance, aquele fiasco, definitivamente, devia t-la convencido de que Mike Cameron no era o homem certo.
O porta-toalhas bateu-lhe s costas e Mike se moveu um pouco para o lado, procurando um melhor ngulo para filmar.
	Poderia se afastar um pouquinho, Kelly, para o tio Mike filmar essa lindeza de beb?
Diante do tom irnico, Kelly ergueu as sobrancelhas de modo indagador, mas atendeu. Depois de um sorriso radiante para Sammi.
	Sorria para a cmera, querida.
	No acha que ela  novinha demais para sorrir?
	Mas est comeando a querer fazer isso!
	Que nada...
Mike continuava filmando. Fazendo careta e falando com voz engraada, Kelly conseguiu arrancar um encantador sorriso da menina.
	Filmou?  indagou, excitada.
	Pode apostar que sim.
	Oh, Mike! Foi o primeiro sorriso de verdade dela. Mal posso esperar pelo prximo.
	Quando voc terminar o banho e descer, vou colocar-a fita no vdeo, para tornarmos a ver esse sorriso.
, J vou tir-la daqui. A gua est esfriando, no , pequenininha?  disse ela, emocionada.  No pensei que fosse possvel  falou com voz cheia de emoo.
	O qu?  Mike quis saber.
	Sentir tanto amor por algum. Quando minha filha est feliz, tambm fico feliz. Quando se agita, s quero acertar, fazer tudo melhor. Quero fazer de seu mundo um lugar perfeito, e se alguma vez algum a magoar...
Mike ligou a filmadora e captou-lhe a emoo. Nunca tinha visto uma expresso assim; terna, suave e ao mesmo tempo forte e profunda. Era a prova de que o amor realmente existia. No se lembrava de algum dia ter visto algum o encarar de forma to emocionada. O mais perto que chegara de sentir afetividade fora quando convivera com os Walker.
Graas a eles, Kelly acreditava no amor e estava  procura desse sentimento. Por que no o buscava ali, to perto?
	O que far com todas essas fitas?  Kelly quis saber ao terminar o banho.  Eu gostaria de ter uma cpia, se deseja ficar com os originais.
	Vou mandar .copiar tudo o que filmei e darei a voc.
	Lembro que minha me me deixou envergonhada no meu primeiro encontro, mostrando fotos de quando eu era beb. Incluindo aquelas em que eu aparecia peladinha. Jamais farei isso com Sammi.
Kelly o fitou por sobre o ombro e sorriu. A beleza daquele sorriso o surpreendeu e o fez continuar a filmar. Aproveitou para esconder-se atrs da cme-ra. No queria que ela lhe visse o rosto. Do contrrio, Kelly na certa adivinharia que ele no estava disposto a permitir que pegasse as cpias dos filmes e desaparecesse de sua vida.
Sem lhe dizer diretamente para no se intrometer, Kelly deixava claro que pretendia criar Samantha sozinha. Ele testemunhara o primeiro sorriso da garota, mas no estaria por perto quando ela desse os primeiros passos, dissesse as primeiras palavras, comparecesse pela primeira vez  escola ou ao primeiro encontro...
Detestava pensar nisso.
Queria estar por perto para proteg-la, orient-la, cuidar dela, ser um verdadeiro pai. Entendia agora que os laos sangneos no tinham a menor importncia. No entanto, Kelly parecia pensar que seria uma imposio, e que era sua obrigao cuidar da menina sozinha. E era orgulhosa e teimosa o suficiente para fazer exatamente isso.
A menos que de algum modo ele conseguisse convenc-la a ficar por mais tempo, ou melhor ainda, a anular o acordo e permanecer a seu lado para sempre.
Isso lhes daria tempo para analisar os prprios sentimentos e ver se esse novo relacionamento, que ambos se recusavam a chamar de amor, teria alguma chance de dar certo.
Mike sorriu, um sorriso perverso. No gostava de rtulos e no queria colocar nomes naquilo que sentia por ela. Abaixou a cmera. Kelly chamava de amizade. Ele pretendia descobrir o que era.
Aps o banho, Kelly alimentou Sammi e colocou-a no bero. Era hora de dormir. Observou, feliz, a criana sorrir durante o sono. Desde o nascimento da garotinha, Mike vinha sendo um "pai" perfeito. No as desapontara sequer uma vez.
Mas Kelly passara a ficar sem graa diante dele, e no sabia dizer por qu. Sentia-se assim desde a noite em que foram ao Le Chne. Mike tentava mudar as regras do acordo. No dizia isso abertamente, mas era possvel sentir a tenso no ar. E o pior era que Kelly estava tentada a permitir que ele virasse o jogo.
Ela sabia que ficaria de corao partido se aquele relacionamento se tornasse ntimo e no desse certo. E se tivessem de separar-se? No suportaria ser colocada para fora da vida de Mike. Talvez ele tivesse razo ao dizer que Kelly se escondia atrs da palavra amizade. Ela no conseguia conceber a vida sem ele.
Ao ouvir a campainha, Kelly correu para atender a porta. Mike estava no jardim, mexendo na piscina. Sammi custara a pegar no sono, e ela temia que o barulho a acordasse. Se isso acontecesse, o pouco tempo que tinha para descansar iria para o espao.
Abriu a porta e sentiu um frio na espinha ao deparar com Doug Hammond.
	Oi, Kel.
	J lhe pedi para no me chamar assim.
	Desculpe. E a'fora do hbito  disse ele, encolhendo os ombros.
Todo de branco, short, camiseta e tnis, Doug tinha a aparncia de um tpico advogado bem-sucedido em seu dia de folga.
Era um homem bonito, alto, loiro. Mas Kelly no conseguia acreditar que um dia se deixara encantar por ele. Agora, que sabia como era manipulador, mal conseguia fit-lo. Quem quer que tentasse usar um beb para se promover no merecia crdito.
	O que quer, Doug?
	Acreditaria se eu dissesse que quero falar com voc sobre a minha garotinha?
	No.
Seu corao lhe dizia que ele iria desistir da custdia, uma vez que no se importava com o beb. H mais de um ms fora notificado judicialmente do nascimento de Sammi, e at aquele momento no dera notcias.
	De qualquer modo, quero conversar com voc a respeito dela. Afinal, sou o pai.
	Um fato que estou tentando ignorar.
	No vai me convidar para entrar, sra. Cameron?  indagou ele, recostado  soleira.
	No.
Kelly estremeceu ao ouvir o modo irnico como ele pronunciou seu nome de casada. Ser que o ex-namorado sabia que o casamento era uma farsa? Impossvel.
	No vai me dizer o nome dela?
	Julguei que soubesse.
	Fui notificado apenas do nascimento, sem nenhum outro detalhe  constatou ele, balanando a cabea.
	E esperou at agora para perguntar?
	Estive muito ocupado. Vai me dizer o nome da criana ou no?
	Da criana? Quanta considerao!
	Afinal, que nome deu a ela?
	Samantha Michele. Se  que isso tem alguma importncia para voc.
	E claro que me importo.  Havia um tom falso e sarcstico em sua voz.  Julguei que deveria saber o nome de minha filha para a audincia da prxima semana.
Kelly engasgou. Parecia ter sido atingida por soco. No sabia nada sobre a audincia. Por que o advogado no a informara?
	Por que o espanto? No tinha idia da audincia? Ei, que tipo de advogado contratou?
	Um amigo de Mike.
	Ah, sei...  ironizou Doug.  Provavelmente um gorila igual a ele, com mais msculos do que crebro.
	Est enganado. Tim Sargent  especialista em direito de famlia.
	Pode ser. Mas o que est esperando para comunic-la da audincia?
Doug tinha razo. E, como Kelly no se sentisse em condies de defender-se, decidiu mudar de assunto.
	No acredito que tenha vindo aqui para apontar as falhas de meu advogado, tampouco por se importar com sua filha. Sua inteno  punir-me por no ter feito exatamente o que me pediu. Acho bom saber que no vou tolerar isso.
	E quanto ao processo?
	Processo?  perguntou ela, confusa, mas logo em seguida emendou:  Meu advogado acredita que no haver processo.
Era a segunda vez em segundos que ele a surpreendia. Tim Sargent mencionara que a possibilidade de um processo era remota, que naquelas circunstncias nenhum juiz daria ganho de causa ao pai. Kelly suspirou e percebeu que precisaria fingir, pelo menos at ligar para o advogado e descobrir o que estava havendo.
	No tente negar. Voc nada sabia a respeito do processo. No sabe fingir.
	Vou verificar isso, mas posso lhe adiantar uma coisa: pretendo colocar todos os obstculos possveis para afast-lo de Sammi.
	Est muito enganada, minha cara.
	Eu soube que em breve haver uma reunio de diretoria na sua empresa...  desafiou ela, erguendo o queixo com altivez.
	Sim, e da?  indagou ele, como se a reunio da empresa no fosse importante.  Estou aqui para reclamar meus direitos de pai.
	Mentira. Voc est tentando bancar o pai responsvel para conseguir a sociedade no escritrio. Mas no permitirei que use minha filha dessa forma!
Mike apareceu naquele momento e passou um brao em torno da cintura da esposa.
	D o fora, Hammond.
Foi s ento que Kelly permitiu-se respirar livremente. A energia que emanava de Mike parecia fortalec-la.
	No vai nem perguntar por que estou aqui?  disse Doug.
	Sei muito bem por qu.
	Sabe?  perguntou Kelly, encarando o marido.
Mike apertou-lhe levemente a cintura, num toque tranqilizador.
	Vai se arrepender por ter vindo nos aborrecer, Hammond.
	Eu devia ter adivinhado que voc iria partir para a violncia.
Doug cruzou os braos, e os msculos de suas mandbulas tornaram-se visivelmente tensos, mostrando quanto estava irritado.
	Voc adoraria que eu lhe desse um murro para poder me processar, mas no vou lhe dar esse gostinho. Existem outros meios de atingi-lo.
Os olhos de Doug se arregalaram.
	Talvez voc possa explicar a Kelly por que o advogado no a comunicou a respeito da audincia...
	Mas do que  que ele est falando?  indagou ela, encarando Mike.
	Mais tarde conversamos  respondeu ele, sem fit-la.
	E por que no agora, Cameron? Diga a ela por que o advogado que voc indicou est mantendo segredo sobre o andamento do processo!
Mike abaixou o brao, irritado.
	No tente torcer as coisas. O canalha aqui  voc disse, apontando para Doug.  Teve um caso com uma cliente. Com isso, violou o cdigo de tica e infringiu a lei!
Doug arqueou a sobrancelha, surpreso.
	O advogado aqui sou eu. Onde foi que aprendeu esses termos jurdicos? Com seu amigo?
	No preciso de advogado para dizer que voc  um canalha.
	Isso  calnia, Cameron.
Kelly sabia queMike no aprendera aquelas palavras num livro sobre futebol. Por mais que odiasse concordar com Doug, temia que ele tivesse razo. Mike estivera falando com Tim Sargent sobre a custdia, e a deixara de fora.
	Vamos esclarecer uma coisa, Hammond. Voc  o bandido dessa histria. E bandidos sempre terminam mal. Vou acabar com voc se insistir em levar adiante a custdia.
Por um instante Doug tremeu de medo. S respirou, aliviado, quando o viu cruzar os braos.
Mike cerrou os punhos com fora e tentou conter a fria.
	Sabemos que pode no haver julgamento por que o juiz dificilmente tirar a criana de Kelly, mas a publicidade negativa arruinar sua reputao, Hammond. J posso at ver as manchetes: "Fa-oso advogado abandona a mulher a quem engravidou depois de ela ter-se recusado a fazer um aborto. E, por puro egosmo, tenta tirar a criana da me".  Deu um sorriso cnico.  E pode apostar que vai haver publicidade, e muita. Os jornais locais iro arruin-lo e os jornais sindicais vo se encarregar de espalhar a notcia pelo pas, caso pense em procurar emprego fora daqui. Ainda no decidi se devo ou no convocar uma reunio com a imprensa antes mesmo da audincia.
	Voc no faria isso.
	Faria, sim. Embora eu esteja afastado da mdia h algum tempo, creio que os jornalistas ficaro interessadas em saber o que tenho a dizer.  Mike encarou Doug, enquanto ele absorvia suas palavras.  E, por fim, voc ter grandes chances de perder a sociedade que tanto almeja.
	Mas eu... eu...
	O que houve, advogado? Ficou mudo de repente?
	Voc no conseguir, Cameron.
Mike encolheu os ombros.
	Se voc no desistir da custdia, meu advogado tem instrues para comear a agir. E, quando ele terminar, voc no vai conseguir sociedade nem com o pipoqueiro da esquina.
	E se eu desistir da custdia?
	O advogado tem os papis preparados e neles voc declara que renuncia a seus direitos sobre Sam-mi. Se assin-los e jurar que no vai mais se aproximar de Kelly ou do beb, o processo ser arquivado e ningum sair perdendo. Voc conseguir a to almejada sociedade. Eu gostaria de v-lo na sarjeta, mas as minhas prioridades so Kelly e Sammi.
	Quanta nobreza!exclamou Doug sarcasticamente.
Mike desejava dar um bom murro naquele safado. Talvez assim ele aprendesse a ter um pouco de carter. Mas se conteve diante do rosto assustado de Kelly.
	Ento, Hammond, o que decide?
Com o rosto transtornado pelo dio, Doug respondeu:
	Voc venceu, Cameron. Eu assino os papis.
	Percebo agora que no  to estpido. Que no passa de um manipulador sem carter eu j sabia.
	Eu s podia esperar isso de valentes baratos como voc  Doug esbravejou.
	Espere um minuto, Doug  disse Kelly. Mike no conseguiu esconder um sorriso de satisfao. No seria necessrio que ela sasse em sua defesa, mas isso tornou ainda mais doce a vingana.  Mike Cameron pode ter seus defeitos, mas valento barato definitivamente ele no .
	E... Voc precisa defend-lo, j que se casou com ele!
Kelly lanou um olhar enigmtico a Mike. Quando voltou a falar com Doug, tinha os punhos cerrados e trmulos.
	Ele  melhor do que voc jamais ser capaz de ser, Doug. E gentil, carinhoso tudo o que sempre sonhei encontrar num homem.
Doug a fitava, chocado.
	Pensei que tivesse se casado com ele para salvar seu emprego.
	Como assim?  indagou Kelly, fingindo-se ofendida.
	No posso acreditar que esteja apaixonada por esse brutamontes.
Mike esperou que ela fosse negar, mas Kelly no fez isso. Depois se deu conta de que ela no poderia negar, pelo menos at que Doug assinasse os malditos papeis.
	Se j disse tudo o que tinha a dizer, por favor, v embora.
Ele assentiu.
	J vou. No h por que continuar com esse bl-bl-bl. Adeus, Kelly.  Fez meno de ir embora, mas voltou-se e encarou-a.  Caso possa interessar, quero que saiba que me preocupo com voc.
	Faz de conta que eu acredito!
Mike ficou a seu lado na varanda enquanto Doug partia na BMW novinha em folha. Quando ele desapareceu de vista, Kelly suspirou, tristonha.
	Ele nem sequer pediu para ver a filha...
	Hammond no a merece. Sammi ficar melhor sem ele.  Mike a fitou e tocou-lhe os lbios com as pontas dos dedos.  Sorria, Kel, e veja o lado bom. Agora no precisar mais se preocupar com ele.
	No sinto a menor vontade de sorrir. E no me chame de Kel, seu traidor. Voc me deve algumas explicaes.
	Eu?  perguntou Mike, tocando o peito com as mos.
	Vamos entrar. Preciso dar uma olhadela em Sammi.
Mike a seguiu para dentro da casa e fechou a porta. Kelly estava realmente furiosa, e tinha razo.
	Tive que fazer aquilo, Kel.
	Aquilo qu?
	Como Susan disse no casamento, sou seu cavaleiro andante, seu protetor...
	Susan  uma romntica incurvel.
	Julguei que voc tambm fosse.
	No sou mais! Jurei riscar os homens da minha vida.
	No para sempre.
	Sim, para sempre.
	Desde quando?
	Desde hoje, quando descobri que nem no meu melhor amigo eu posso confiar.

CAPTULO X

Kelly parou em frente  lareira, com os braos cruzados. Ao ver seus irados olhos verdes, Mike desejou encontrar as palavras certas para convenc-la de que agira corretamente. Estendeu a mo para fazer-lhe um carinho.
	Pare com isso!  disse ela, desviando-se.
Mike suspirou. No passado, quando Kelly ficava zangada, conseguia acalm-la com uma carcia.
	Lamento muito se a aborreci.
	Aborreceu?  repetiu ela, num tom estridente. Fez mais do que isso, treinador. Estou confusa, com raiva e magoada por ter sido trada.
No me trate como um inimigo. Posso at entender seus sentimentos. Mas traio? Eu jamais a trairia.
	Discutiremos isso mais tarde. E agora me d um bom motivo para eu no saber da audincia.
	Posso lhe dar mais de um.
	E aposto como o primeiro  que no esperava que Doug viesse me contar essa novidade.
Mike no poderia negar. Tim Sargent dissera que, alm de ser um mau-carter, Hammond era conhecido por sua astcia e que jamais entraria em contato com Kelly, pois isso colocaria seu plano em perigo.
	Certo. Esta  uma delas.
	E a segunda?  indagou ela, os lbios trmulos.
	A ultra-sonografia. Kelly o fitou, indagadora.
	O que a ultra-sonografia pode ter a ver com essa histria?
	Lembra-se de que voc brincou, dizendo que para mim fora uma experincia quase religiosa? Pois no estava errada. Quando vi Sammi dentro de seu ventre, me dei conta de que o bem-estar dela dependia do seu. Quando a vi ter contraes prematuras por causa de Doug, jurei que haveria de proteg-la. Foi ento que pedi a Tim que filtrasse todas as informaes que lhe desse a voc.
	Ah! Ento foi por isso que nunca consegui encontr-lo no escritrio!  Kelly franziu a testa, intrigada.  Mas isso ainda no explica por que continuou me escondendo as coisas aps Sammi ter nascido. Afinal, eu tinha o direito de ser comunicada a respeito do andamento do processo.
	No vi necessidade de coloc-la a par de meros detalhes.
	Quando se trata de um processo de custdia, nenhum detalhe poder ser classificado como mero. Ao menos para a me, que corre o risco de ficar sem o filho.
	S que no caso de Sammi no havia a menor possibilidade de haver um processo.
	E se Doug se recusasse a assinar os papis? Se ele insistisse em obter a custdia? O que o juiz acharia do no comparecimento da me da criana  audincia?
	Se fosse preciso ir to longe, eu teria lhe contado tudo. E estaria l, com voc.
	Pare com isso. Pare de ser charmoso, cuidadoso, doce e todas as coisas que costuma ser quando estou brava.
	Quer ouvir os outros motivos?
	Desde que seja breve!
	Eu e Tim bolamos uma estratgia. Voc sabe qual, j que ouviu o que eu disse a Hammond. Ele no queria Sammi, mas sim a sociedade. Ento o ameaamos: se continuasse a fazer presso, teria que agentar as conseqncias da publicidade negativa.
	Se tinha tanta certeza de que iria funcionar, por que no me inteirou do caso? Eu entenderia!
	Queria que voc continuasse a cuidar de sua filha em paz. Tinha certeza absoluta de que Hammond roeria a corda. Portanto, no vi razo para que passasse por toda essa apreenso.
	E se eu precisasse encarar o juiz? No pensou que precisaria estar preparada?
	E justamente para isso que voc tem um advogado.
	No. "Voc" tem um advogado, um amigo. Eu no tenho nenhum dos dois.
	Isso  ridculo. Sou seu amigo.
Ela estava sendo mais dura do que Mike imaginara. Para ele, a prioridade era proteg-la, e a Sammi. E continuava pensando assim.
Kelly o fitou, sem saber se o esganava ou o abraava. Mas, ao lembrar do que Mike havia feito, tinha vontade de gritar.
Sempre que enfrentava algum problema, era a Mike quem procurava, e ele fazia o mesmo. Mas agora estavam casados e ele no julgara importante discutir o processo envolvendo a custdia de Sammi. Para proteg-la, afirmara.
	Amigos no nos apunhalam pelas costas.
	S tentei poup-la. Voc estava ocupada, tomando conta de Sammi, e s vinha dormindo quatro ou cinco horas por noite. No precisava da ameaa daquele canalha para mant-la acordada. Julguei ser melhor poup-la de mais essa chateao.
	Acredito em voc. No sabe mentir, treinador.
	Fico feliz em saber disso.
	Na verdade, eu me culpo mais do que a voc pelo que aconteceu. Negligenciei minha responsabilidade. Devia ter exigido mais informaes do advogado. E, se no ficasse satisfeita, contrataria um outro. Jamais me ocorreu que voc e Tim Sargent agiam s minhas costas.
Mike tentara apenas ser gentil, um caso clssico de erro cometido por um bom motivo. E, se aquela amizade no tivesse por base a honestidade, provavelmente Kelly perdoaria o deslize. Na verdade, casara-se com ele porque na ocasio era sua melhor escolha, e tomara a deciso pelo bem de Sammi. Mas agora as coigas haviam mudado.
Inclusive para ela. Era a pior hora para descobrir isso, mas sua transformao devia estar to evidente que at mesmo Doug a notara.
Estava apaixonada por Mike.
	S lhe dei quatro motivos at agora. No quer ouvir os outros seis?
	No  necessrio.  Kelly passou por ele, apressada.  Vou subir para cuidar de Sammi.
	Precisa de ajuda?
	No, obrigada. Deso quando ela acordar  avisou, sem se voltar.
Gostaria de pegar os dez motivos que Mike lhe dera e fazer com que os engolisse. Perdera a amizade dele, ou, pelo menos, estava prestes a perd-la. O comeo do fim acontecera no dia em que haviam dito "aceito". Depois daquilo, a amizade nunca mais foi a mesma. Viver com Mike a fizera perceber que ele tinha tudo o que sonhava num homem.
Parou no meio da escada. Viver com Mike... E se no vivesse mais com ele? Agora que Doug desistira da custdia, no precisariam mais representar o papel de casal feliz. O divrcio era sua nica chance. Se partisse, talvez houvesse uma chance de salvar aquela amizade. 
Mike voltava do escritrio de Tim Sargent, ansioso para contar as novidades a Kelly. Nos ltimos dias ela se mantivera distante, o que o deixava maluco. Esperava que as notcias os reaproximassem. Mas, acontecesse o que acontecesse, no mudaria a deciso que acabara de tomar.
Estava aprendendo muito sobre essa coisa de solido. A frase "sozinho em meio a uma multido" lhe veio  mente. Kelly e Sammi viviam naquela casa, mas no estariam mais distantes se morassem no Tibete.
Apesar de j ter se desculpado, s o que ouvira dela fora que erros, mesmo quando cometidos por razes nobres, continuam sendo erros.
Por mais que tentasse, no conseguiria derrubar aquela lgica. Mas poderia provar que aquilo jamais se repetiria.
Ao se aproximar da casa, avistou um carro desconhecido parado no ptio em frente. Parecia que Kelly tinha companhia. Esperava apenas que a visita no demorasse. Estava ansioso para conversar com ela.
Abriu a porta da frente e gritou:
 Kelly? Onde est voc?
Aqui na sala  ouviu-a dizer.
Encontrou-a sentada em uma das poltronas da sala. Diante dela, uma senhora de cabelos grisalhos trazia Sammi no colo. Tinha boa aparncia e estava bem-vestida. A garotinha parecia  vontade em seus braos.
	Mike, esta  Slvia Fellwock. Slvia, Mike Cameron, meu marido  disse Kelly, num tom estri
tamente profissional. Havia menos calor nela do que quando mandava algum aluno indisciplinado para a diretoria.
A senhora ergueu o beb, desculpando-se por no poder apertar-lhe a mo.
	Como vai, sr. Cameron? E um prazer conhec-lo.
	O prazer  meu...  disse ele, meio intrigado.  Pode me chamar de Mike.
A mulher sorriu para Sammi e disse:
	Tem uma linda filhinha, sr. Cameron.
	Obrigado.  No se importou em corrigi-la, j que considerava Sammi sua filha. No poderia am-la mais.  Ela  linda, no acha? Uma cpia da me.
Slvia olhou para Kelly; depois, novamente para o beb.
	Tem razo.
Mike sentou-se com elas, e tocou delicadamente o rosto de Sammi enquanto falava:
	Foi muita gentileza de sua parte vir nos visitar. Julguei conhecer todas as amigas de minha esposa...
Kelly limpou a garganta.
	Slvia est aqui em resposta ao anncio que coloquei no jornal, solicitando uma bab.
	Bab? Por que no me disse?  Ele no queria uma estranha cuidando de Sammi. O que Kelly poderia saber a respeito de uma mulher que respondera a um anncio de jornal?  Por que escolheu a profisso de bab, Slvia? Voc tem filhos?
	Mike, eu cuido disso.
	No h problema, sra. Cameron. Admiro o interesse de seu marido. A maioria dos homens deixa a tarefa s esposas, quando elas precisam retornar ao trabalho.
Trabalho? Kelly voltaria ao trabalho? Mike no pensara mais nisso. Era verdade que ela dissera que retornaria ao trabalho no incio de agosto, mas a conhecia o suficiente para saber que lhe partiria o corao deixar a filha com uma estranha. Por que estaria fazendo aquilo? Por que no conversara a respeito?
Slvia voltou-se para Mike. Parecia honesta e bondosa, mas isso nada significava. Embalou carinhosamente Sammi quando ela comeou a ficar agitada.
	Tenho trs filhos, j adultos. Os dois rapazes esto casados e a moa estuda fora.
Mike levantou-se e cruzou os braos diante do peito.
	Imaginei que, depois de ter os filhos criados, uma mulher preferisse descansar e dedicar algum tempo a si mesma  disse. Fitou Kelly e percebeu reprovao em seu olhar.
	No preciso do dinheiro, sr. Cameron. Preciso preencher meu tempo com algo til. Adoro crianas, especialmente bebs.  Encolheu os ombros antes de continuar:  Creio que comecei a me sentir um pouco sozinha.
Mike olhou para Sammi e em seguida para Kelly.
	Entendo muito bem o que  sentir isso.
	Por que se sentiria sozinho?  indagou a mulher.  Tem tudo nesta casa.
	Voc parece ser uma boa pessoa.  Nem ele mesmo conseguiu acreditar naquelas palavras.  Kelly e eu vamos discutir o assunto. Ligaremos para comunicar nossa deciso ainda esta semana.
Kelly se levantou e, quando ele a fitou, viu dio em seus olhos.
	Sei que est tentando ajudar, Mike, mas eu cuido disso.
	Bem, eu j vou indo, sra. Cameron.  Slvia levantou-se e entregou Sammi a Mike.
Ele a colocou em p, apoiada no ombro, e respirou seu perfume. Kelly aproximou-se da bab e apertou-lhe a mo.
	Vou verificar as referncias que deu. Deve entender que tenho outras candidatas para entrevistar.
	Claro. Hoje em dia precisamos ter muito cuidado com aqueles, que admitimos em nossa casa.
Kelly sorriu amistosamente.
	Tenho seu telefone. Ligo assim que decidir.
	Obrigada, sra. Cameron.
Ela acompanhou-a  sada, e Mike ficou aguardando que retornasse. Tinham alguns assuntos a discutir.
Kelly retornou pouco depois. Cruzou os braos diante do peito e encarou-o.
	Voc no tinha o direito de se intrometer desse jeito. A escolha da bab  minha. Por que fez isso?
	Eu poderia fazer-lhe a mesma pergunta.
Quando Kelly se aproximou, Mike s conseguia pensar em beij-la. Fazer amor com ela. Precisava de uma mulher, e queria que soubesse que essa mulher era ela. Mas tinham coisas a resolver antes disso.
	Por que colocou o anncio?
	Pretendo retornar ao trabalho dentro de algumas semanas, e algum precisa ficar com Sammi. E, graas a voc, provavelmente perdi a candidata melhor qualificada.
	O que viu de to especial em Slvia Fellwock?
	 experiente, bondosa e no cobra muito, pois no precisa do dinheiro. E tem carro. Eu no precisaria levar Sammi at a casa dela. Slvia iria peg-la na minha casa.
Mike no gostou de ouvi-la dizer minha casa. O que pretendia com aquilo?
	No entendo por que ela faz questo do emprego.
	Imagino que gostaria de ser av, e que seus filhos no esto colaborando. Aparentemente, casaram-se com mulheres muito envolvidas com o trabalho, e que por isso preferem no ter filhos.
	Ao contrrio de voc, que planeja deixar que uma estranha crie sua filha.    
	No est sendo justo, Mike. Ele suspirou.
	Sei disso. Me desculpe.
	Eu adoraria ficar em casa cuidando de Sammi, mas no tenho escolha. Preciso trabalhar.
	No, voc no precisa.
	E como espera que eu lhe d um teto, que a alimente e a vista? Nada se consegue na vida sem trabalho.
As palavras eram de Frank Walker, pai dela.
	Seu pai era um sbio. Ainda sinto falta dele.
	Eu tambm sinto. Papai tinha razo ao dizer isso, e sou-lhe grata por ter me ensinado a tomar conta de mim mesma. Enquanto eu viver, nada faltar  minha filha.
	Exceto a coisa mais importante.
	O qu?
	Voc.  Ele viu lgrimas brotarem nos olhos de Kelly.  No quero mago-la. S estou tentando faz-la entender meu ponto de vista.
	Ento eu devo ter perdido alguma coisa. Continuo sem entend-lo.
Sammi dormia em seus braos e Mike tentava concentrar-se na conversa. Precisava ser o mais per-suasivo possvel para tentar convenc-la. Mas seria difcil fazer isso com um beb no colo.
	Tentarei faz-la entender assim que colocar Sammi no bero.
	Deixe que eu fao isso.
Mike notou-lhe o desespero. Kelly parecia querer aproveitar cada segundo que lhe restava ao lado da filha, e era compreensvel. O pior era que o tempo daquele casamento tambm se esgotava. Se Kelly partisse, ele morreria de saudade.
	Sabe que no me importo de coloc-la na cama  afirmou.
	V, ento  concordou Kelly.
. Quando voltar, quero lhe fazer uma pergunta.
Ao retornar, Mike encontrou Kelly caminhando de um lado para outro na sala.
	Muito bem  disse ela.  Quero que me explique uma coisa: acha que reforar o fato de que outra pessoa ter o prazer de criar minha filha poderia me ajudar em algo? E no diga que foi cruel apenas para ser gentil.
	No volte ao trabalho. Fique em casa cuidando dela, e deixe-me tomar conta das duas.
Kelly fitou-o, muda pelo espanto.
	Isso no faz parte do acordo que fizemos  respondeu finalmente.
	E da?
	Nosso acordo diz que ficaramos casados durante quatro meses, e esse prazo est se esgotando  disse ela, os lbios trmulos.  Preciso lhe agradecer. Tenho Sammi e meu emprego de volta graas a voc.
	Tire uma licena-maternidade. Ter mais tempo para pensar.
	Estive no mdico e ele me deu alta. Estou apta para o trabalho.
	Fique, Kelly.
	Quatro meses foi suficiente. Minha vida agora est em ordem. No h motivo para prend-lo por mais tempo. No quero que esse trato afete nossa amizade. Tenho medo do que poder acontecer se continuarmos no p em que estamos. Eu no suportaria...  Interrompeu o que i dizendo e voltou-se, embaraada.
Mike no se sentia preso. Pela primeira vez sentia-se livre, como se vivesse plenamente. Tinha propsitos, alegrias e satisfao. Percebera que, sem Kelly e Sammi, sua vida no teria significado.
Aproximou-se dela e colocou a mo em seu ombro. Kelly estremeceu, tensa. Resistiu quando ele tentou fazer com que se voltasse. Em seguida relaxou e virou-se.
	Lembra-se de que decidimos que esse prazo poderia ser mudado?
	Voc sugeriu, mas no concordei.
Mike sabia que Kelly era teimosa, mas agora ela estava exagerando. O que estaria acontecendo? Andaria assustada com alguma coisa? Se ele no descobrisse o que havia, na certa a perderia.
	No quero que v embora.
	No quero abusar da sua boa vontade. Eu e Sammi j estamos aqui h muito tempo.
	Por que continua insistindo nisso? Gosto de t-las aqui em casa.
	Preciso ir.
	No precisa, no.
	Claro que preciso. Resisti casar-me com voc porque temia que isso fosse arruinar nossa amizade.
	Mas no arruinou.
	Ainda no, mas poder arruinar se a situao perdurar  disse ela, os olhos fixos nos lbios tentadores.
	Est totalmente enganada. Essa situao apenas nos aproximou.
	No diga isso
	Por que no? De que tem medo?
	Das mudanas. O que temos  perfeito, ou pelo menos era. Gostaria que as coisas continuassem como sempre foram. No quero que mudem.
Ento ela tambm percebera a mudana no relacionamento! Sentia-se fortemente atrada por ele, e isso a assustava.
	 muito tarde. As coisas entre ns j no so mais as mesmas. Mudaram sim, mas para melhor...
	No entende? Preciso voltar ao trabalho, e morar em outro lugar. Tenho que partir antes que mais mudanas aconteam, enquanto ainda houver chance de voltar a ser o que ramos antes.
Mike sempre detestara rtulos, e agora sabia o porqu. Eram muito limitados e no deixavam escolha. S havia um modo de quebrar as defesas de Kelly: mostrar-lhe que mudar podia ser bom. Segurou-a com fora pelos braos e puxou-a para perto de si. Ela afastou-se.
	O que est tentando fazer?
Com um s movimento ele a abraou, anulando qualquer tentativa de resistncia.
	Vou beij-la.
Silenciou-lhe os protestos com um beijo sedutor, e percebeu que a ttica funcionava quando a ouviu suspirar antes de ceder e abra-lo com fora.
Quando seus lbios se tocaram, Kelly sentiu que a chama do desejo se transformava em uma paixo incontrolada, uma nsia fsica que permanecera adormecida em seu ntimo por muito tempo. Ela o desejava desesperadamente. Assim como o sol nascia todos os dias, Kelly sabia que o queria em sua vida, para partilhar alegrias, tristezas. Queria ser sua esposa de verdade.
Mike vibrou de prazer ao sentir a intensidade com que ela correspondia ao beijo. Isso o deixou fora de controle, inebriado pela vitria.
	Fique comigo  murmurou, roando os lbios no pescoo esguio de Kelly.
	Mike...
As coisas haviam mudado para melhor. O relacionamento atingira um nvel mais ntimo, mais gostoso. O importante eram os sentimentos, no as palavras.
	Eu quero voc, querida... Deixe-me amar voc...
	No diga isso, Mike.
	Por que no? Sei que tambm me quer.
	Eu estaria mentindo se dissesse que no. S que no posso...  Seus olhos pareciam implorar compreenso.
	No?
Mike, porm, decidiu resolver as coisas a seu modo. Pegou-a no colo e carregou-a para o quarto.
	O que pretende fazer, Mike?  perguntou ela, assustada.
	Acabar com nossa amizade.
	No...
	Assim poderemos seguir em frente.
	No faa isso. Ponha-me no cho!
Ele parou no mesmo instante e manteve-a segura por um momento, saboreando sua maciez, sua fragilidade, antes de coloc-la no cho.
Kelly afastou-se.
	Por que no? O que h de errado?
Tristeza e confuso mesclavam-se no rosto dela,
desesperando-o. Tudo o que desejava era abra-la e faz-la feliz.
	Pode tomar conta de Sammi para mim? S por algumas horas.
	Sabe quejsim. Aonde vai?
	Procurar um apartamento.
Pegou a bolsa e as chaves do carro. Mas, antes que pudesse sair, ele a impediu.
	No faa isso. Vamos conversar.
	 muito tarde  disse ela, balanando a cabea.
	Costumvamos conversar quando surgia algum problema, lembra-se?
	Garanto que tudo voltar ao normal assim que eu encontrar um lugar para morar. Agora, deixe-me ir.
Mike passou as mos nos cabelos, desesperado, mas deixou-a passar. No tinha o direito de impedi-la. Fizera tudo por ela, exceto dizer que a amava.
 Posso no ser o seu homem ideal, Kel, mas eu a amo  confessou, olhando para a porta fechada.

CAPTULO XI

Kelly rodou a cidade inteira, sem parar em um s edifcio onde havia placas de "aluga-se apartamento". Estava confusa; precisava conversar com algum. Decidiu procurar Susan.
Ao chegar  casa dos Wishart, encontrou os dois filhos do casal jogando basquete no quintal. J conhecia Brian e Scott e sorriu ao lembrar que Susan os chamava de Don Juan e Lothario. Os nomes eram apropriados. Ambos.eram lindos.
	Ol, rapazes. Sua me est em casa?
Brian, o mais velho, estava com vinte anos. Era
alto e loirssimo. Fitou-a com a bola na mo.
	Foi at a padaria, mas no deve demorar. No quer esperar?
	Obrigada. Preciso falar com ela.
	Quer jogar basquete enquanto espera?  convidou Scott, sorrindo de modo charmoso.
Tinha quase a mesma altura do irmo, e tambm era loiro e bonito. O tpico garoto de dezoito anos, cheio de fs em busca da conquista. Kelly entendia por qu. Era um paquerador incorrigvel.
	Por que no? Esperava que eu fosse dizer que no sei jogar?
	Ento mostre quanto  boa!
Ele atirou a bola. Kelly a pegou e com habilidade encestou-a. Os olhos do rapaz se arregalaram, surpresos. Na segunda vez, ela segurou a bola nas mos, fez pontaria e atirou. Mas no acertou.
	Estou um pouco fora de forma. Acabei de ter um beb.
	Mame nos contou  disse Brian.  Soubemos que  uma gracinha.
	Tambm acho. Mike diz...
	Como Cameron est?  quis saber Scott.  Joguei futebol com ele no ano passado.
	Est bem...  Kelly arremessou a bola vrias vezes. Olhou para os rapazes e, antes que pudesse evitar, as palavras escaparam-lhe da boca:  Gostaria de fazer uma pergunta, rapazes. Vocs acham que entre um homem e uma mulher  possvel existir uma amizade platnica?
Os olhos azuis de Scott se arregalaram.
	Quer responder, irmozinho?
	Eu? Voc  mais experiente  escapou Brian, vermelho como um pimento.
Naquele momento, Brad, o marido de Susan, abriu a porta. Os dois garotos se voltaram e disseram em unssono:
	Ol, papai.
	O que est havendo aqui, rapazes? Eu no tinha uma recepo to calorosa desde que vocs eram pequenos. Se no os conhecesse, diria que de fato ficaram felizes em me ver.
	Ora, papai, sempre ficamos felizes quando voc est por perto  respondeu Scott.  Chegou na hora certa. Kelly tem uma pergunta a fazer.
	Oi, Kelly! Que prazer v-la aqui...  saudou Brad com um sorriso satisfeito.
	Oi, Brad.
Os garotos recomearam a jogar enquanto Kelly se aproximava do terrao.
	Qual  a pergunta?
	Eu gostaria de saber se entre um homem e uma mulher  possvel haver uma amizade sincera, sem nada a ver com sexo. Preciso de uma opinio masculina.
	Essa no  exatamente uma pergunta, mas posso responder com razovel certeza. Sou um homem.
	Ora, Brad!  Kelly riu.  No estou brincando. E srio. As coisas podem continuar sendo as mesmas? Digo, porque complicar um relacionamento amigvel com essa coisa de homem-mulher?
Quando Brad se ps a alisar a barba, Kelly soube que fora ao lugar certo. Ele parecia a essncia da sabedoria, apesar do short e da camiseta. Afinal, homens inteligentes no precisam ser elegantes. Doug era um exemplo disso. Parecia um top-model, mas no passava de mais um rosto bonito.
Mas tambm havia Mike, sempre bem-vestido, bonito... Nossa, como estava confusa!
Brad por um momento olhou para a grama no cho. Em seguida colocou as mos nos bolsos e a fitou.
	E uma boa pergunta, mas creio que depende muito das pessoas envolvidas  disse ele, pouco  vontade.
Suspirou aliviado quando percebeu o carro da esposa se aproximando. Quando Susan estacionou na garagem, Brad e os garotos se apressaram em descarregar as compras.
	O que est havendo aqui?  indagou ela.
	Por qu?  Kelly quis saber.
	Porque conheo os meus homens. Ajudar com as compras definitivamente no  do feitio deles. Creio que somente um acidente nuclear os faria parar de jogar para vir me ajudar.
	E mesmo? Ser que os atrapalhei?
	Bem, isso eu no sei...
Kelly seguiu a amiga quando ela entrou em casa. Na cozinha, os sacos do supermercado foram deixados sobre a mesa enquanto Susan arrumava os congelados no freezer.
	Fique  vontade, Kelly. Vou guardar apenas os congelados e logo conversaremos.
	Susan? Estou deixando Mike.
O espanto arregalou os olhos da amiga.
	Mas por qu? O que ele fez de to grave?
	Nada. Fui eu...
	Mas ele deve ter feito alguma coisa, embora eu no possa imaginar o qu. Mike  maravilhoso, tudo o que uma mulher sonha num homem.
	Ele tentou mudar as regras do jogo.
	Como assim? Pode explicar melhor? Desconfio que entre vocs exista algum segredo...
Kelly assentiu, pensativa.
	Mike se casou comigo apenas para salvar meu emprego, dar um nome  minha filha e ajudar-me a manter a custdia dela, caso o pai me processasse.
	Ento ele no  o pai de Sammi?
	No.me diga que acreditou naqueles boatos!
	Se fosse verdade, eu no teria me surpreendido. Como eu disse no seu casamento, at um cego perceberia que existe um clima especial entre vocs dois.  Susan a fitou com ar srio.  Ento o pai de Sammi quer process-la? O que ele deseja, a filha?
Kelly assentiu.
	Ameaou entrar com um pedido de custdia. Mike me convenceu a contratar um certo advogado, amigo dele. S que me deixaram fora do processo. Para me proteger, segundo ele.
	E isso a aborreceu?
	No s me aborreceu. Me sinto trada, e no sei se vou conseguir superar. Alm disso, o trato foi ficarmos casados quatro meses, mas agora ele quer que continuemos juntos. Desconfio que esteja apaixonado por mim.
	Ele disse isso?
	Ainda no, mas creio que esteja prestes a dizer.
	E o que voc sente por ele?
	Tambm o amo.
	No estou entendendo. Se os dois se gostam, por que voc vai deix-lo? E tem mais: deveria estar discutindo esse assunto com ele, no comigo. Foi a primeira coisa sensata que Susan disse.
	Susan acha que devemos conversar  disse Kelly, recostada  porta do banheiro, enquanto Mike enxugava o cabelo.
	E voc precisou ouvir isso dela para se convencer?
	Estou confusa. No torne as coisas mais difceis.  Colocou a bolsa e as chaves do carro sobre a cmoda.  Sammi est bem?
	Est limpa e alimentada. Agora resolveu tirar um cochilo. O que mais Susan disse?
	Mais nada.
Mike balanou a cabea.
	Raciocine comigo. Se ela nada mais disse, como foi que voc mudou de idia a respeito de conversar?
Susan deve ter dito alguma coisa importante. Do contrrio, voc no estaria aqui.
	Tenho um problema com um amigo, sabe?
	E Susan no pode ajudar a resolv-lo? Kelly encolheu os ombros.
	Jamais fui capaz de confiar em outra pessoa, s em voc.
	Entendo...  Mike sorriu, aquele sorriso encantador que fez o corao dela disparar.
	Voc no pretende facilitar as coisas, no  mesmo?  indagou ela.
Baixou os olhos para a toalha que ele amarrara  cintura. Se as coisas tomassem um certo rumo, essa poderia ser a segunda vez que o veria despido.
	E por que eu deveria facilitar-lhe as coisas?  indagou ele.
	Porque voc  o ltimo dos homens bons e tenho certeza de que faria isso por ns.
	Fale, ento. Sou todo ouvidos. Qual  o problema com esse seu amigo?
	Ele  o melhor amigo que j tive, s que no quer mais ser meu amigo.
	Voc sabe por qu?
	Ele quer uma esposa.  Kelly o fitou.  Ns tnhamos uma amizade perfeita, e sempre funcionou...  hesitou,  procura da palavra certa  ... perfeitamente.
	E o que a faz pensar que o casamento no funcionaria?
	Ele j foi casado e no deu certo.
	E acha que ele no deveria tentar uma segunda vez?
Kelly encolheu os ombros, e nada disse. Mike a fitou, um sorriso travesso nos lbios sedutores.
	 bvio que sou seu amigo, e quero seja minha esposa de verdade. Mas, se v algum problema nisso, precisa me explicar qual. Confesso que a minha inteligncia no  a mais brilhante do mundo.
	Voc  o homem mais sensato que conheo e o que possui o corao mais terno.
	Falando em corao, quero que saiba que, acontea b que acontecer, jamais deixarei de ser seu amigo. Se voc aceitar ser minha esposa, nossa amizade jamais terminar. Muito pelo contrrio, pegar fogo!
	Oh, Mike...
	Sei que no sou aquele romntico com quem voc sonha, mas eu a amo e sei que voc tambm me ama.
	Oh...
	O que h de errado nisso? Muitas pessoas mentiriam, implorariam e at matariam para ter o que ns temos.
	Se eu me deixar levar por esse amor, vou acabar perdendo voc e ser uma catstrofe!
Mike balanou a cabea, como se no acreditasse no que ouvia.
	E... Voc vai ter mesmo de me explicar, porque continuo no entendendo.
	Assisti a seu namoro com Carol, seu casamento, e vi a paixo que existia entre vocs se transformar
.num desastre. O mais triste foi que, depois disso, voc nunca mais falou com ela. Nem toca no nome de Carol.
	Porque no h nada para ser dito.
	Voc no costuma mentir para mim, Cameron. No comece a faz-lo agora. Conversamos sobre tudo, mas jamais sobre o seu divrcio. Sei que o assunto o magoa muito.
Mike fez o sinal da cruz.
	Juro que jamais toquei no assunto porque nada havia a dizer. Carol me deixou quando meus dias de glria chegaram ao fim. Depois disso, percebi que na verdade no a amava e que nem sentia a falta dela.
Kelly o fitou atravs do espelho.
	Tem certeza de que isso  verdade?
Mike assentiu. Aproximou-se e segurou-a no rosto, fazendo-a encar-lo.
	Eu a amo, Kelly Cameron, e no  por gratido  sua famlia nem por causa de Sammi. Apenas porque voc  voc. Creio que sempre a amei.
	Tambm o amo, Mike, e creio que sempre o amei...  Lgrimas de felicidade inundaram-lhe os olhos.
	Sei que voc sonha com grandes romances, mas...
Kelly silenciou-o com a mo.
	Esquea. Nesse departamento, voc  professor.  Fechou os olhos por um momento e suspirou
quando ele beijou-lhe a palma da mo.
	Mesmo aps aquele malfadado jantar no L Chne?
Kelly sorriu.
	No sabe como aquilo funcionou. Me deixou confusa, maravilhada e espantada.
	E temendo que o amor fosse destruir nossa amizade perfeita.
	Foi mais uma coisa que voc me ensinou: que no se pode ter tudo. Um marido amoroso, amante ardente, amigo e pai fervoroso tudo num s pacote.
	Mas eu ganhei uma doce esposa que precisa relaxar e no dizer mais nada. Oh, Kelly, voc me faz esquecer do mundo, sabe? Quando chegou aqui, eu tinha algo a perguntar.
	Seja rpido, treinador.  Kelly o beijou de leve nos lbios.  Pelo que conheo de nossa filha, em alguns minutos ela vai acordar e nos interromper...
	Falando em Sammi, lembrei o que queria perguntar-lhe. O que acha de eu adot-la?
	Voc j  o pai dela.
	Mas quero ser o pai legalmente. Como Ham-mond renunciou ao ptrio-poder, a nica objeo partiria de voc...
	O que eu mais desejo  que voc seja o verdadeiro pai de minha filha.
	Ento estamos acertados?
	Ainda no. Precisamos resolver mais alguns detalhes...  disse ela, indicando a cama.
	Ah!  exclamou Mike, seguindo-lhe o olhar.  Uma vez lhe disse que seria a primeira a saber se eu precisasse de uma mulher...
	E. Voc disse.
	Preciso de voc, Kel.
	Tambm preciso de voc. Eu o amo, Mike Cameron.
Mike aproximou-se da cama, puxou a colcha e jogou-a no cho. Retornou para Kelly e ergueu-a no colo. Aquele gesto to romntico fez um n formar-se em sua garganta. Enlevada, ela sentiu-se carregada para a cama e gentilmente deitada sobre o lenol.
Mike em seguida juntou-se a ela. E ali, com os corpos nus, selaram um acordo mais poderoso do que os votos do matrimnio. Era uma promessa de amor eterno.
Kelly sabia que seriam para sempre amigos e amantes, marido e mulher. Era hora de tornar a confiar nos homens. Ao menos em um homem em particular. No melhor deles.

FIM



 

SEO DE DICAS E INFORMAES PRTICAS
PARA VOC CUIDAR MELHOR DE SEU BEB

O nascimento de uma criana  sempre uma experincia nica e muito especial, para ela e para toda a famlia. E mais ainda para os pais, que aguardam ansiosos para ver seu rostinho por longos nove meses. Quando o beb chega, a alegria se mescla com os temores de no saber cuidar adequadamente do beb. Pois bem, a partir de agora, mensalmente, voc ter dicas e conselhos de como preparar a chegada do beb, como cuidar bem dele etc. etc.

GRAVIDEZ
Desejada ou no, programada ou surpreendente, a gravidez  sempre um momento delicado para a mulher, tanto do ponto de vista fsico, quando psquico e emocional. Todo o seu organismo passa a trabalhar-para o bom desenvolvimento do feto e seu estado de esprito ganha um colorido novo, pleno de expectativas positivas. Esse  um momento em que ela precisa de tranqilidade para se preparar da melhor maneira possvel.
E tudo o que fizer ser importante, para si mesma e para o beb. Manter uma atividade fsica compatvel com seu estado, repousar o suficiente e alimentar-se muito bem so itens indispensveis para a grvida, alm,  claro, de contar com o acompanhamento mdico constante, chamado de pr-natal. Afinal, vale tudo para garantir um bom parto, pronta recuperao e levar para casa um beb cheio de sade.

FECUNDAO
No auge do perodo frtil, o vulo maduro  liberado pelo ovrio da mulher e gradualmente inicia sua jornada pela trompa de Falpio at o tero. Aps o ato sexual, os espermatozides seguem pela vagina rumo ao tero e, depois, em direo s trom-pas. Apenas um deles conseguir fertilizar o vulo.
A mulher s se d conta de que a menstruao est atrasada quando seu beb j est com duas semanas de vida. Seis semanas mais tarde, o aglomerado de clulas que se implantou no tero j  um embrio com cabea, crebro, pescoo, olhos, orelhas e um corao em desenvolvimento.

OS PRIMEIROS SINTOMAS
Embora nem sempre signifique certeza de gravidez, o atraso da menstruao  em geral o primeiro sintoma notvel de que a mulher est grvida. Como existem outras situaes em que isto acontece (distrbios hormonais, tratamentos mais rigorosos para perda de peso, ingesto de certos medicamentos e menopausa) esse primeiro sinal deve ser seguido de um exame de urina. Em geral, os mdicos recomendam que a mulher o faa aps quinze dias de atraso da menstruao e confirmam a gravidez com um exame clnico.
Outros sinais comeam a ser notados. Algumas mulheres reparam que os seios aumentam de volume e ficam mais sensveis, at doloridos; cansao exagerado e uma sonolncia constante acompanham muitas gestantes nesse perodo. As alteraes hormonais provocam perturbaes no trato digestivo, trazendo uma incmoda sensao de azia, alm de nuseas e inapetncia. No so raras as mulheres que se ressentem de um gosto metlico na boca. Tambm podem ocorrer sbitas flutuaes de humor e alteraes emocionais, provocadas pelas transformaes que comeam a acontecer no organismo feminino aps a concepo. E h muitas futuras mes que simplesmente "sabem" que esto grvidas, porque se sentem diferentes ou porque identificam sintomas ou sensaes que relacionam com gravidezes anteriores.

PROVIDNCIAS NECESSRIAS
Confirmada a gravidez,  hora de preparar tudo para a chegada do beb.
O Pr-Natal
O acompanhamento mdico mensal  um cuidado indispensvel para desenvolver uma gestao tranqila e sem problemas, alm de dar ao beb as melhores chances de sade perfeita.
J na-primeira consulta, o mdico calcula a data provvel do parto e conversa longamente com a gestante para fazer uma ficha detalhada do estado geral de sua sade. Informa-se tambm sobre seu histrico mdico, doenas que j teve, se j fez alguma cirurgia, e investiga sua famlia, para detectar possveis problemas hereditrios que podem afetar o feto.
Um exame ginecolgico adequado estado da mulher tambm  feito e vrios exames so pedidos, como o hemograma, para saber seu tipo de sangue e o fator Rh, a glicemia, e sorologias para rubola, toxoplasmose e sfilis.
Controlar o peso da gestante ser uma preocupao constante em todo o pr-natal, alm do controle da presso arterial.
Testes que so reveladores de problemas antes do nascimento:
	Doppelerfluxometria: Este  um exame que mede o fluxo sangneo do cordo umbilical. Indica diversos problemas com o feto como: o crescimento uterino retardado, as toxemias gravdicas e avalia a vitalidade do beb.
	Bipsia de Vilosidade Coriana ou Vilo Corial: Consiste num exame feito no prprio consultrio mdico, indolor, que coleta uma pequena amostra de tecido placentrio e serve para o diagnstico precoce de cerca de 60 anomalias genticas diferentes.
	Ultra-sonografia: A juno de um equipamento de vdeo a um sensor de ultra-som permite ver o que est ocorrendo no interior do corpo humano. Durante a gestao ele avalia com preciso o tempo gestacional, checa a localizao da placenta e a quantidade de lquido amnitico, alm de revelar anomalias fetais. Isento de riscos, esse exame  parte da rotina do pr-natal.
	Amniocentese: O lquido amnitico  recolhido atravs de uma puno para exame. O material colhido  enviado a um laboratrio que far um ma-
peamento gentico do feto. Com esse teste  feito o diagnstico precoce do mongolismo, incompatibilidade sangnea entre a me e o feto, alm de inmeras doenas genticas.
O Grande Dia
Somando-se 280 dias  data do incio do ltimo perodo menstrual determina-se a data provvel do nascimento do beb. Existe uma margem de erro de duas semanas, mais ou menos.

